sexta-feira, 13 de março de 2026

Quando os New Age começam a falar de Cristo, e a longa história de um Cristo arrancado ao seu contexto

 Nos últimos anos tornou-se cada vez mais comum encontrar pessoas vindas do universo new age a falar de Cristo. À primeira vista, isso pode parecer um sinal positivo: alguém que estava fora ou desapontado acerca da tradição cristã começa a olhar para Jesus. Mas basta escutar com alguma atenção para perceber que muitas vezes não estão realmente a falar do Cristo dos Evangelhos. Estão a falar de uma figura reconstruída segundo categorias espirituais modernas. Cristo torna-se “consciência cósmica”, “energia crística”, “avatar espiritual”, “expressão universal do divino”.

Esse vocabulário pode parecer profundo, mas pertence a uma espiritualidade muito recente,
nascida de correntes esotéricas europeias e americanas do século XIX e da cultura terapêutica do século XX. O resultado é um Cristo espiritualizado, mas profundamente deshistoricizado. Jesus deixa de ser um judeu concreto do século I para se tornar um símbolo espiritual genérico, adaptável a qualquer sistema espiritual contemporâneo.
Para perceber o que se perde nesse processo é preciso regressar ao mundo onde Jesus realmente viveu. O universo mental de Jesus é o do judaísmo do Segundo Templo, um mundo saturado de Escritura, profecia, esperança messiânica e expectativa do agir de Deus na história. Quando Jesus fala, fala dentro de categorias muito específicas: Reino de Deus, fidelidade à Torá, justiça (tsedaqah), misericórdia (ḥesed), arrependimento e restauração de Israel.
No aramaico que provavelmente falava, o Reino de Deus seria algo como malkutha d’Alaha (מלכותא דאלהא). Não se trata de um estado interior de harmonia espiritual nem de um alinhamento com as “energias do universo”. Trata-se do governo soberano de Deus que irrompe na história humana e transforma a vida das pessoas e do povo.
Também o título que Jesus usa repetidamente para si mesmo pertence a esse universo: “Filho do Homem”, expressão próxima do aramaico bar enash (בר אנש). Esta expressão não descreve um nível de consciência espiritual; remete diretamente para a visão do livro de Daniel, onde uma figura humana recebe autoridade divina e participa da soberania de Deus. No contexto judaico, isso tem implicações messiânicas e escatológicas muito concretas.
Mas há algo ainda mais profundo que muitas vezes passa despercebido. Alguns estudiosos observaram que a própria vida de Jesus parece refletir, de forma simbólica e teológica, a própria história de Israel. O que acontece em Jesus ecoa acontecimentos fundamentais da história do povo.
Israel atravessa o deserto durante quarenta anos; Jesus passa quarenta dias no deserto.
Israel atravessa as águas do Jordão para entrar na terra prometida; Jesus inicia o seu ministério ao ser batizado no Jordão.
Israel recebe a Lei no Sinai; Jesus sobe ao monte para ensinar e reinterpretar a Lei no chamado Sermão da Montanha.
Dentro desta linha de leitura, um dos episódios mais fascinantes é o da transfiguração. No Evangelho, Jesus sobe a um monte , tradicionalmente identificado com o Monte Tabor, acompanhado por três discípulos. Ali acontece algo extraordinário: o seu rosto brilha, as suas vestes tornam-se luminosas, e aparecem duas figuras centrais da história de Israel: Moisés e Elias.
O simbolismo é poderoso. Moisés representa a Torá, a Lei dada a Israel. Elias representa os profetas, a voz que chama o povo de volta à fidelidade. E ali, no alto do monte, essas duas figuras convergem em Jesus. A narrativa não apresenta apenas uma experiência mística. Apresenta uma revelação teológica: a história de Israel encontra o seu ponto de convergência em Cristo. Esta ideia é reforçada pelas três tendas mencionadas por Pedro, que nos remete para a festa de Sukkot.
Não é por acaso que o cenário é um monte. Na tradição bíblica, os montes são lugares de revelação divina: Sinai, Carmelo, Horeb. O Tabor entra nessa geografia simbólica. A transfiguração não é uma “elevação vibracional”, como algumas leituras modernas sugerem. É uma revelação da glória divina, aquilo que na tradição judaica se associava à presença de Deus, à Shekhinah.
Esse tipo de linguagem pertence ao mundo religioso de Israel, onde também surgem tradições místicas como a reflexão sobre a Merkabah, o “trono-carro” de Deus descrito na visão do profeta Ezequiel. Nessas tradições, o objetivo não era manipular energias espirituais, mas contemplar a majestade de Deus e a sua glória.
Quando essas imagens passam para o universo new age, ocorre frequentemente uma transformação radical. A Merkabah torna-se um “campo de luz”. A glória divina transforma-se em “energia cósmica”. Cristo passa a ser apresentado como um mestre de consciência universal. O vocabulário parece espiritual, mas está desligado do contexto bíblico onde essas imagens nasceram.
Curiosamente, este processo não começou com o new age. Ele tem raízes mais antigas dentro da própria história do cristianismo ocidental. Quando surgem os movimentos protestantes no século XVI, a intenção era regressar às Escrituras. Mas ao romper com a tradição interpretativa acumulada durante séculos na Igreja, abriu-se uma nova dinâmica: cada leitor passou a interpretar a Bíblia de forma cada vez mais individual.
Esse princípio, frequentemente resumido pela expressão sola scriptura, teve consequências inesperadas. Ao longo dos séculos, especialmente no mundo anglo-saxónico, multiplicaram-se leituras que retiraram Jesus do seu contexto judaico e o colocaram dentro de categorias culturais modernas. O Cristo bíblico tornou-se cada vez mais maleável, reinterpretado segundo as sensibilidades de cada época. Um Jesus domesticado como ironizo frequentemente.
Nesse terreno cultural, as correntes espirituais modernas encontraram espaço para ir ainda mais longe. Uma vez separado da tradição histórica e do seu contexto semita, Jesus tornou-se facilmente apropriável por novos sistemas espirituais. O new age apenas levou esse processo ao extremo, transformando Cristo numa figura espiritual universal adaptável a qualquer narrativa interior.
Há também um mecanismo psicológico curioso nesse tipo de discurso. Muitas vezes ele cria uma atmosfera de superioridade espiritual subtil. Expressões como “despertar”, “elevar a consciência” ou “estar em evolução” funcionam como marcadores simbólicos de hierarquia. Quem questiona é facilmente colocado no papel de alguém menos desperto. Assim evita-se o confronto real com a história, com a teologia ou com o contexto bíblico.
O problema não é que as pessoas estejam necessariamente de má-fé. Muitas procuram sinceramente sentido espiritual. Mas num tempo marcado por confusão cultural e espiritual, torna-se essencial distinguir entre apropriação simbólica de Jesus e compreensão do Jesus histórico.
Porque quando regressamos às fontes, ao universo semita, à linguagem aramaica, à história de Israel, encontramos um Cristo muito mais desafiante e fascinante do que qualquer versão espiritual diluída. Encontramos, sob a o estudo estritamente histórico, um profeta judeu que anuncia a chegada do Reino de Deus, que chama à conversão, que confronta poderes religiosos e políticos, e que apresenta a sua própria vida como o ponto de convergência da história de Israel.
Talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro entusiasmo de estudar Jesus: descobrir que, longe de ser um arquétipo espiritual genérico, ele surge no coração de uma história concreta, a história de Israel, e que compreender essa história abre uma profundidade inesperada nas palavras e nos gestos que chegaram até nós através dos Evangelhos. Pena que os judeus O tenham rejeitado, pena que tantos que O trazem somente na língua, não O conheçam verdadeiramente!

Armagedon e o Apocalipse: quando um texto do século I é usado para justificar guerras modernas

 Recentemente surgiram denúncias de militares norte-americanos que afirmam ter ouvido comandantes justificar operações militares com argumentos escatológicos baseados no Apocalipse. Segundo relatos apresentados à Military Religious Freedom Foundation, alguns oficiais terão afirmado que conflitos no Médio Oriente fariam parte do plano divino para desencadear o Armagedon e o retorno de Cristo.

Este episódio ilustra um fenómeno mais amplo: a presença de uma leitura futurista e geopolítica do Apocalipse dentro de certos meios evangélicos norte-americanos, frequentemente ligados ao chamado sionismo cristão.
O problema é que essa leitura está profundamente desalinhada com o contexto histórico e literário do próprio texto bíblico.
O Apocalipse no contexto do século I
O livro conhecido como Apocalipse de João pertence ao género literário apocalíptico judaico. Este género floresceu entre o século II a.C. e o século I d.C. e inclui textos como o Livro de Daniel ou o Livro de Henoc.
Nestes escritos, a linguagem é essencialmente simbólica. Animais representam impérios, números possuem valor teológico e batalhas cósmicas funcionam como metáforas para conflitos políticos e espirituais.
Segundo a historiadora do cristianismo Elaine Pagels, o Apocalipse foi composto num contexto de tensão entre comunidades cristãs e o poder imperial romano.
A maioria dos investigadores situa a redação do texto no final do século I, durante o reinado do imperador Domiciano. O autor, tradicionalmente identificado como João de Patmos, escreve para comunidades cristãs da Ásia Menor que enfrentavam pressão para participar no culto imperial.
Neste contexto, muitas imagens do livro tornam-se compreensíveis: -a “Babilónia” descrita no texto é geralmente entendida como uma referência simbólica a Roma.
Um dos elementos mais discutidos do Apocalipse é o chamado “número da besta”: 666.
Vários estudos indicam que o número corresponde provavelmente ao nome do imperador Nero quando escrito em hebraico e calculado através da gematria, um sistema antigo que atribui valores numéricos às letras.
Este detalhe é importante porque mostra que o texto está profundamente enraizado no seu contexto histórico imediato. O Apocalipse fala do poder imperial romano e das perseguições sofridas pelos cristãos, não de eventos geopolíticos dois mil anos no futuro.
Como observa o especialista do Novo Testamento N. T. Wright, o livro deve ser lido como uma crítica profética ao imperialismo romano e como uma mensagem de esperança dirigida a comunidades perseguidas.
O significado de Armagedão
O termo “Armagedão” aparece apenas uma vez no Apocalipse (16:16).
A palavra deriva da expressão hebraica Har Megiddo:
har – monte
megiddo – cidade antiga situada no vale de Jezreel
Historicamente, Megido era um ponto estratégico onde ocorreram diversas batalhas decisivas da história do Levante. Por isso muitos estudiosos entendem a expressão como uma imagem simbólica de confronto final, e não como uma previsão literal de uma batalha futura. Ou seja, trata-se de uma metáfora histórica conhecida do imaginário bíblico.
Como os primeiros cristãos interpretavam o Apocalipse
Outro aspecto frequentemente ignorado é a tradição interpretativa da Igreja antiga.
Autores como, Ireneu de Lião, Orígenes, Agostinho de Hipona, interpretavam grande parte do Apocalipse em chave simbólica.
Particularmente Agostinho, na obra Cidade de Deus, recusou a leitura literal de um milénio político futuro e interpretou as imagens apocalípticas de forma espiritual e eclesiológica.
Isto mostra que a leitura literalista moderna não corresponde à tradição dominante da antiguidade cristã, mantida na Igreja Católica.
A origem moderna da leitura futurista
A interpretação que domina em muitos meios evangélicos norte-americanos é relativamente recente. Ela surge no século XIX com o teólogo anglo-irlandês John Nelson Darby.
Darby desenvolveu o chamado dispensacionalismo, um sistema teológico que interpreta a história bíblica como uma sequência de etapas proféticas e lê o Apocalipse como um mapa detalhado dos acontecimentos do fim dos tempos.
Estas ideias tornaram-se extremamente influentes através da Bíblia de Referência Scofield, publicada em 1909 e amplamente difundida nos Estados Unidos.
Foi esta tradição que popularizou a ideia de que conflitos no Médio Oriente seriam sinais do Armagedão iminente, aproveitado pela comunicação politica para enviar os seus filhos para conflitos no médio oriente.
Quando a escatologia entra no discurso militar
Quando esta interpretação é transportada para o discurso político ou militar surge um problema sério.
A guerra deixa de ser apenas um fenómeno histórico ou estratégico e passa a ser vista como parte inevitável de um plano divino.
Esse tipo de pensamento cria aquilo que alguns investigadores chamam escatologia militarizada: a ideia de que determinados conflitos são necessários para acelerar o cumprimento das profecias bíblicas.
Trata-se de uma leitura profundamente problemática, tanto do ponto de vista histórico como teológico.
Uma inversão histórica
Existe ainda uma ironia histórica nesta situação.
Os primeiros cristãos escreveram e leram o Apocalipse como crítica ao poder imperial romano. O texto servia para denunciar sistemas de dominação política e religiosa, sob o imaginário representativo semita para poder fugir ao controlo das autoridades romanas.
Hoje, em certos discursos contemporâneos, o mesmo texto é usado para justificar guerras conduzidas por uma potência global.
Ou seja, o sentido original do livro foi praticamente invertido.
O Apocalipse não é um manual de geopolítica contemporânea (apesar de apresentar uma mecânica sucessiva de acontecimentos interpretatórios), nem um calendário detalhado de guerras futuras. Trata-se de um texto profundamente enraizado na literatura apocalíptica judaica do século I, escrito para comunidades cristãs que viviam sob a pressão do Império Romano.
Transformar esse texto numa justificação religiosa para conflitos modernos revela não apenas uma leitura historicamente errada, mas também uma distorção teológica grave.
Convém esclarecer um ponto para evitar leituras simplistas. Não está em causa que líderes políticos recebam responsáveis religiosos nem que se realizem momentos de oração em contextos institucionais. Essa prática faz parte da tradição pública de muitos países e não constitui, por si só, qualquer problema teológico ou democrático. O problema surge quando a linguagem religiosa é instrumentalizada para sugerir que determinadas guerras fazem parte de um plano escatológico inevitável ou que decisões militares concretas representam o cumprimento direto de profecias bíblicas.
Esse salto, da oração à legitimação profética da guerra, é precisamente o ponto onde começa a manipulação do texto bíblico. Na minha modesta opinião é demoníaco!
Existe aqui também uma responsabilidade que recai sobre o próprio clero. Quando padres ou pastores permitem que interpretações simplistas e sensacionalistas do Apocalipse circulem sem correção teológica, acabam por alimentar leituras que exploram a ignorância religiosa dos fiéis. Em vez de explicar o texto à luz da sua matriz histórica e semita, deixam prosperar narrativas escatológicas que pouco têm a ver com o pensamento bíblico original.
Do ponto de vista teológico isto é ainda mais sério, porque ignora a própria matriz espiritual do cristianismo. A mensagem de Jesus Cristo nasce dentro da tradição profética de Israel, uma tradição que denuncia os sistemas de dominação e chama à conversão moral das sociedades. O núcleo dessa mensagem não é a glorificação da guerra, mas a revelação de um Reino de Deus que confronta precisamente as lógicas de poder e violência.
Reduzir o horizonte escatológico do cristianismo a um roteiro de guerra final no Médio Oriente não é apenas um erro interpretativo: é uma deformação da própria mensagem que os evangelhos atribuem a Jesus Cristo.
Quando o Apocalipse é arrancado do seu contexto histórico e cultural, deixa de ser uma crítica simbólica aos sistemas imperiais do seu tempo e transforma-se num instrumento ideológico ao serviço de agendas políticas contemporâneas. Nesse processo perde-se aquilo que o texto procurava preservar: a esperança de que a justiça divina não se manifesta na glorificação da guerra, mas no julgamento dos sistemas que a produzem.
Recuperar uma leitura histórica, semita e teologicamente consistente do Apocalipse não é apenas um exercício académico. É uma necessidade intelectual e espiritual para impedir que um dos textos mais complexos da tradição cristã continue a ser utilizado como argumento religioso para conflitos que nada têm a ver com a mensagem original proclamada por Jesus Cristo.


Apocalipse 2:9 e 3:9 — quando se perde o contexto semita do texto

Entre os textos mais frequentemente citados do Apocalipse de João encontram-se duas passagens dirigidas às comunidades cristãs da Ásia Menor:
Ap 2:9 - “Conheço a tua tribulação e a tua pobreza, mas tu és rico e a blasfémia dos que se dizem judeus e não são, mas são sinagoga de satanás.”
Ap 3:9 -“Eis que farei vir os da sinagoga de satanás, os que se dizem judeus e não são, mas mentem; eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés.”
Estas frases são frequentemente usadas em debates ideológicos contemporâneos, mas quase sempre desligadas do contexto histórico e religioso do século I.
O contexto
O autor do Apocalipse escreve para comunidades cristãs da Ásia Menor no final do século I. Essas comunidades eram compostas sobretudo por judeus e gentios que seguiam Jesus Cristo como Messias.
Nesse período o movimento de Jesus ainda estava profundamente ligado ao judaísmo. Não existia ainda uma separação clara entre “cristãos” e “judeus”.
O conflito descrito em Apocalipse não é um conflito entre religiões diferentes, mas um conflito interno dentro do mundo judaico.
No pensamento bíblico antigo, “ser judeu” não era apenas questão de genealogia, mas de fidelidade à aliança de Deus.
A expressão “sinagoga de satanás” deve ser entendida dentro da linguagem profética judaica.
No hebraico bíblico, “satan” (שטן) significa literalmente adversário, obstáculo ou acusador. Lembram-se de Pedro quando barrou, e tentou demover o caminho e a decisão de Jesus?
Nos profetas hebraicos era comum denunciar grupos religiosos que, na visão do profeta, se tinham afastado da vontade de Deus.
O dispensacionalismo popular em muitos meios protestantes interpreta o Apocalipse como um mapa profético da história moderna. Nesse esquema, Israel moderno torna-se automaticamente protagonista das profecias. Mas essa abordagem frequentemente ignora que o Apocalipse foi escrito dentro de um ambiente semita do século I, onde as disputas eram internas ao judaísmo. E convinha denunciá-las.
Erro de leitura inicial
O Apocalipse de João é frequentemente lido como um livro de previsões sobre o fim do mundo. Essa leitura tornou-se comum sobretudo a partir de correntes modernas que interpretam o texto como um mapa profético do futuro. No entanto, essa abordagem ignora o significado da própria palavra que dá nome ao livro. O termo grego ἀποκάλυψις (apokálypsis) significa literalmente retirar o véu, tornar visível aquilo que estava coberto. Nesse sentido aproxima-se bastante do antigo significado da palavra portuguesa descobrir: o acto de retirar aquilo que cobre algo para que se torne visível. O objetivo do texto não é antecipar acontecimentos distantes, mas descobrir, isto é, revelar a realidade histórica e religiosa do seu próprio tempo, mostrando o que estava escondido por detrás das aparências do poder político e denunciar as dificuldades aos primeiros cristãos.
A realidade histórica daquele tempo
Para compreender o que o autor está a fazer é necessário situar o livro no ambiente histórico do século I. O cristianismo inicial não surgiu como uma religião separada, mas como um movimento dentro do judaísmo messiânico. Os primeiros seguidores de Jesus Cristo eram judeus que acreditavam que as promessas messiânicas das Escrituras de Israel tinham encontrado cumprimento na sua pessoa. Durante várias décadas esse movimento existiu no interior do mundo judaico, partilhando as Escrituras, a linguagem religiosa e as categorias teológicas do judaísmo do período.
Esse contexto tinha também uma dimensão política concreta. No Império Romano o judaísmo possuía um estatuto reconhecido pelas autoridades. As comunidades judaicas podiam manter as suas práticas religiosas e estavam dispensadas de certos cultos públicos ligados ao imperador. Gozavam de um estatuto de protecção legal.
Quando o movimento que seguia Jesus começou a crescer, surgiram tensões entre diferentes grupos dentro do próprio judaísmo sobre a identidade do Messias e a interpretação das Escrituras. Em várias cidades da Ásia Menor, alguns judeus passaram a denunciar os seguidores de Jesus às autoridades romanas, afirmando que eles não pertenciam ao judaísmo tradicional. Quando isso acontecia, os cristãos perdiam o estatuto jurídico de que os judeus gozavam e ficavam expostos à repressão imperial.
É nesse contexto que se devem ler as passagens de Apocalipse 2:9 e 3:9. Quando o autor fala daqueles “que se dizem judeus e não são”, está a utilizar uma linguagem típica da tradição profética judaica. A discussão não é étnica nem racial. Trata-se de uma disputa sobre a fidelidade às próprias Escrituras de Israel. Para o autor do Apocalipse, aqueles que rejeitam o carácter messiânico de Jesus estão a contrariar o sentido das promessas bíblicas. A expressão “sinagoga de satanás” deve ser entendida dentro desse quadro. No hebraico bíblico a palavra satan significa adversário, obstáculo ou acusador. O termo é usado para designar quem se opõe ao propósito de Deus. O autor está a afirmar que os opositores do movimento messiânico estão a agir como adversários daquilo que as próprias Escrituras anunciavam.
A leitura destas passagens fora desse contexto conduz facilmente a interpretações distorcidas. Quando se perde o enquadramento histórico do século I e o ambiente semita em que o texto foi escrito, surgem leituras que transformam a polémica religiosa interna do judaísmo antigo em afirmações de carácter étnico ou racial. Esse tipo de interpretação não corresponde ao pensamento do autor nem à realidade histórica do cristianismo nascente.

O Apocalipse de João não pretende construir teorias raciais nem oferecer previsões geopolíticas para épocas futuras. O livro procura descobrir a realidade do seu tempo, retirando o véu que encobria as relações entre poder político, conflito religioso e fidelidade às Escrituras. No centro dessa revelação está a afirmação de que Jesus Cristo é o Messias prometido nas tradições de Israel e que a história deve ser interpretada à luz dessa convicção. 

Os erros de ler Jesus fora do seu mundo semita


Um dos problemas mais frequentes nas discussões entre católicos e evangélicos é que ambos, muitas vezes, interpretam as palavras de Jesus através de categorias teológicas posteriores, ignorando o contexto linguístico e cultural em que ele realmente falou. Não pretendo atacar ninguém, apenas um puxão de orelhas, dado que as minhas investigações e leituras me levam a não pactuar com erros. (Desculpem o o texto longo)
Jesus não ensinou em latim nem em grego filosófico. Ele ensinou como um judeu galileu aramaicófono do século I. Os seus discípulos eram judeus galileus, formados na linguagem simbólica das Escrituras hebraicas, nas práticas da sinagoga e nas refeições rituais judaicas. Isso muda profundamente a forma como certas frases devem ser compreendidas.
Pegando no exemplo da ultima ceia, esta não surge do nada, como alguns cristãos julgam. As formulas usadas eram empregues, muito antes de Jesus as ter mencionado no ambiente judaico. Ele introduziu algo novo que mencionarei mais á frente.

Se quisermos compreender seriamente as palavras de Jesus na Última Ceia, é preciso começar por reconhecer esse erro metodológico, muito comum nas discussões entre católicos e evangélicos, acerca da tradição, porque abordam o texto do Novo Testamento fora do mundo em que ele nasceu.
A Ultima Ceia é judaica
A Última Ceia, surge como um ritual judaico que segue a estrutura de uma refeição judaica marcada pela berakhah, a bênção pronunciada sobre o pão e o vinho. A palavra hebraica berakhah (ברכה) significa bênção ou louvor, e tem origem na raiz BRK, que expressa o acto de reconhecer Deus como fonte da vida. A forma clássica dessa bênção dizia: “Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que faz sair o pão da terra.” Sobre o vinho dizia-se: “Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que cria o fruto da vinha.” Essas fórmulas existiam muito antes do cristianismo e eram recitadas em praticamente todas as refeições formais.

No entanto, na tradição judaica havia também um princípio importante: nem qualquer pessoa presidia a bênção sacramental numa refeição sagrada. No contexto do templo, os sacrifícios e as bênçãos associadas eram realizados pelos sacerdotes descendentes de Aarão. Nas refeições pascais familiares, quem presidia a bênção era o chefe da casa, que agia como representante da comunidade familiar diante de Deus. Em ambos os casos existe um elemento comum: a bênção ritual não é um gesto arbitrário de qualquer participante; é pronunciada por quem preside legitimamente à assembleia e foi empossado para o efeito!!!!
Quando os Evangelhos dizem que Jesus “deu graças”, o verbo grego utilizado traduz precisamente essa prática judaica da berakhah. Em outras palavras, a refeição começa dentro de uma tradição litúrgica perfeitamente normal no judaísmo.
O momento decisivo acontece quando Jesus toma esse gesto tradicional e lhe dá um significado novo. Depois da bênção e da partilha do pão, Ele acrescentou: “Isto é o meu corpo.” A frase costuma ser interpretada hoje através de categorias teológicas desenvolvidas séculos mais tarde.
No entanto, um judeu do século I, ouviria essas palavras dentro da lógica da linguagem semita. Nas línguas semíticas, expressões do tipo “isto é” nem sempre indicam identidade material absoluta. Muitas vezes indicam representação ou equivalência simbólica. Um exemplo claro encontra-se no livro do Génesis: ao interpretar o sonho do Faraó, José afirma que “as sete vacas são sete anos”. Evidentemente ninguém imagina que vacas se transformem literalmente em anos; trata-se de uma linguagem simbólica que estabelece correspondência entre um sinal e a realidade que ele representa.
Outro detalhe importante está na própria palavra “corpo”. A expressão aramaica que Jesus provavelmente usaria envolveria o termo pagra (ܦܓܪ). No pensamento semita essa palavra não designa apenas o corpo físico. Pode referir-se à pessoa inteira, à sua vida ou à existência entregue. Quando um judeu fala do corpo, frequentemente está a falar da pessoa na sua totalidade. Por isso, ao ouvir “isto é o meu corpo”, os discípulos provavelmente entenderam algo mais próximo de “isto sou eu entregue por vós” ou “esta é a minha vida dada por vós”. Literalmente! O pão torna-se assim um sinal da própria pessoa de Jesus que se oferece.
A frase seguinte reforça ainda mais esse quadro: “Fazei isto em memória de mim.” No mundo moderno a palavra memória sugere simplesmente recordar algo mentalmente. No entanto, na tradição bíblica o conceito é muito mais forte. O termo hebraico subjacente é zikaron (זכרון), que significa memorial. Na mentalidade semita, um memorial não é apenas lembrança psicológica; é uma ação litúrgica que torna presente um acontecimento fundador. Na celebração da Páscoa judaica, por exemplo, cada geração considera-se participante do êxodo narrado no livro do Êxodo. O evento passado torna-se presente na celebração. Quando Jesus manda repetir o gesto em sua memória, ele está a instituir precisamente um memorial desse tipo: uma ação que torna presente a sua entrega e a sua nova aliança, não uma recordação psicológica de alguém que se lembra de um falecido!
Zikaron, significa um memorial ativo, uma celebração que torna presente um acontecimento fundador da história de salvação. A Páscoa judaica é o exemplo mais claro. Quando os judeus celebram a libertação narrada no Êxodo, cada geração considera-se participante desse evento. O passado torna-se presente na celebração. Assim, quando Jesus manda repetir o gesto “em memória” dele, está a instituir um memorial nesse mesmo sentido bíblico: uma ação que torna presente a sua entrega e a nova aliança! Quem não percebe isto está em ERRO!
Este detalhe linguístico desmonta uma das leituras protestantes mais comuns, segundo a qual a Ceia do Senhor seria apenas uma recordação simbólica da morte de Jesus. A lógica de zikaron mostra que o memorial bíblico nunca foi entendido como mera lembrança mental. Trata-se de uma atualização litúrgica de um acontecimento salvador. Deviam estudar o Jesus histórico e a língua aramaica, aprenderiam mais do que visitarem Jerusalém!
Mas o contexto semita da Última Ceia esclarece também outro ponto frequentemente ignorado: a natureza do pão e do vinho utilizados na refeição. Historicamente, não se trata de pão comum nem de simples sumo de uva. A Última Ceia acontece dentro do contexto da Páscoa judaica, que utiliza pão ázimo, PÃO SEM FERMENTO E VINHO VERDADEIRO!!!! O pão ázimo é o pão da pressa do êxodo, sinal da libertação narrada no livro Êxodo, (afinal com tanto preciosismo, falha-se na sola scriputra...) Não é um pão qualquer; é um pão ritual ligado à memória da salvação. Da mesma forma, o vinho faz parte integrante da refeição pascal judaica. A tradição do Seder inclui várias taças de vinho ao longo da celebração. No judaísmo do século I, beber vinho era parte normal das refeições festivas (lembram-se do casamento? ) e das celebrações religiosas. A ideia de substituir o vinho por sumo de uva é um desenvolvimento muito tardio, ligado a contextos culturais modernos e não à tradição bíblica. É ERRO!!!
Por isso, quando Jesus toma o pão e o vinho e os associa à sua própria pessoa, ele está a reinterpretar elementos rituais já carregados de significado na tradição de Israel. O pão ázimo torna-se o sinal da sua vida entregue e o vinho torna-se o sinal da nova aliança no seu sangue. Aqui entra a consagração meus amigos! Estes elementos não são arbitrários nem intercambiáveis, porque pertencem à linguagem simbólica da própria Páscoa e tradição judaica.
Quando reunimos todos esses elementos, a estrutura da berakhah, o significado amplo da palavra aramaica pagra, o conceito bíblico de zikaron e o contexto pascal do pão ázimo e do vinho, percebemos que a Última Ceia está profundamente enraizada no universo religioso do judaísmo do século I. Jesus não está a criar um ritual desligado da tradição de Israel; está a reinterpretar a refeição pascal à luz da sua própria missão messiânica. O gesto cria um memorial vivo da sua entrega, que se torna o centro da vida das primeiras comunidades que reconheceram Nele o Messias e ainda para mais O Nazareno, termo que um dia explicarei pela carga simbólica que tem quando desmontamos a palavra em aramaico.
Ignorar a língua aramaica e o pensamento semita conduz facilmente a interpretações anacrónicas dos Evangelhos. Muitas polémicas teológicas posteriores nasceram precisamente porque o texto foi lido através de categorias culturais estranhas ao mundo em que foi pronunciado. Quando regressamos ao ambiente linguístico original de Jesus e dos seus discípulos, torna-se evidente que a Última Ceia não é apenas uma metáfora nem um simples gesto simbólico. É um acto profundamente enraizado na tradição bíblica de Israel, reinterpretado por Jesus como o memorial vivo da sua própria entrega e da nova aliança que inaugura. "Brincarem"com isto ou não darem a devida importância, é ERRADO! Implica o menosprezo por todo o sacrifica de Jesus. Mas há quem queira domesticar Deus...
Bibliografia
Joachim Jeremias – The Eucharistic Words of Jesus. London: SCM Press, 1966.
Matthew Black – An Aramaic Approach to the Gospels and Acts. Oxford: Clarendon Press, 1967.
Joseph A. Fitzmyer – A Wandering Aramean: Collected Aramaic Essays. Scholars Press, 1979.
George M. Lamsa – Gospel Light: Comments on the Teachings of Jesus from Aramaic and Unchanged Eastern Customs. Harper & Row, 1936.
Rocco A. Errico – Aramaic Light on the Gospels of Matthew, Mark, Luke and John. Noohra Foundation, 2005.
E. P. Sanders – Judaism: Practice and Belief 63 BCE–66 CE. Trinity Press International, 1992.
Brant Pitre – Jesus and the Jewish Roots of the Eucharist. Doubleday, 2011.

Didache (final do século I) 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Levantai-vos Nobre Povo!


“Vêm até nós como cordeiros mas por dentro são lobos vorazes”
Eis o momento decisivo para o honrado e nobre povo se afirmar. É tempo de reagir, pacificamente, de forma a evitar que os violentos continuem a violar. Tomenos os nossos próprios passos da cidadania, escrevia eu à meses, percebendo o que ai vinha. Mas passemos aos actos. Como sugestão,  apelo a que as forças vivas de Portugal organizem uma marcha de todos os cantos do país até Lisboa. Marchámos por Timor, é hora de marchar por Portugal. Todas as marchas precisam de um objectivo, por isso, partilho este discurso que não é meu, mas no qual quase todo o ser humano se retrata, cheio de objectivos.
“Gostaria de ajudar a todos,... Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos. O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.
Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados: As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.
O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco: Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;
Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós...em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: "Não desesperem".
A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá…
Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão.
Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.
No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito: "O reino de Deus está dentro do homem"
Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em vocês, o povo.
Vós, o povo têm o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo têm o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo!”

terça-feira, 29 de maio de 2012

A oração de Jesus em aramaico


Há muito que não escrevo sobre espiritualidade neste espaço. Irei nesta linhas tentar elucidar sobre algumas conclusões, fruto de algum estudo que tenho desenvolvido ao longo dos últimos anos. Sempre tive uma impressão de que algo estava mal, sobre o ponto de vista meramente histórico, acerca da história de Jesus o Nazareno. Desde muito cedo verifiquei incongruências nos evangelhos. Esse foi o ponto de partida para uma pesquisa sem fim. Todos os dias aparecem novos factos, sobre a figura histórica mais popular da história ocidental. 
Com base num texto de um pesquisador, transcrevo o artigo de Mark Hathaway. Antes disso, devo informar o leitor que a língua, cultura e o nome de Jesus (Yahushua-nome verdadeiro e lê-se: Iaorrúshua que quer dizer, Deus Salva) eram muito diferentes do que mais tarde veio a se transformar na religião oficial do Estado Romano. Quer queiramos quer não, existem factores de influência cultural e até religiosa dos povos gregos e romanos daqueles tempos que moldaram as traduções dos evangelhos canónicos. Devemos ter em mente que nessa altura existiam mais de 50 evangelhos que falavam de Jesus e da sua doutrina. Para compreender a mensagem de Yashushua, é preciso entender a sua língua, pois as línguas são fruto da cultura dos povos. Tal como as traduções dos evangelhos, que contêm factores que permitiam a aceitação da nova religião de Roma. Muitos desses factores nada têm a ver com costumes hebraicos. Basta verificar o nome de Yashushua para ver que sofreu transformações ao longo dos séculos. O nome é algo importante, basta ler algumas passagens do Bíblia. Se o leitor se chama José em Portugal também será chamado José nos EUA, em Pequim, ou noutro lugar do Mundo. Então porquê "traduzir" o nome? Talvez para haver melhor aceitação dos destinados...Mas isso será o próximo artigo. Já vimos que o problema das traduções retira muitas ideias associadas, especialmente no aramaico antigo. Hoje é considerada uma língua morta, contudo existem algumas localidades sírias isoladas que mantiveram a língua praticamente intacta, especialmente na tradição religiosa. Sagrada, por isso inviolável, sob pena de blasfémia. A língua e a tradição religiosa, destes lugarejos não sofreram a evangelização islâmica. Ainda hoje dizem o Pai Nosso tal como se pode ler a seguir.
  

Uma introdução por Mark Hathaway

"Este artigo foi adaptado de uma versão anterior publicado pela primeira vez em Scarboro da revista Missões. Para mais informações sobre a Oração do Senhor em aramaico, por favor, consulte o trabalho de Saadi Neil Douglas-Klotz em www.abwoon.com Você também pode ler  possíveis "variações" da oração em aramaico escrito por Mark Hathaway, com base em seus estudos com Saadi Neil Douglas-Klotz.
Para entrar noutra cultura é preciso tentar compreender a forma como as pessoas pensam e como elas vêem o mundo. Isso também significa abrir mão de algumas das nossas próprias maneiras estabelecidas de ver e de conceber.
Em grande medida, a cultura é corporificada na linguagem. Quando nós pensamos, nós normalmente enquadramos nossos pensamentos em palavras. Cada língua tem sua própria maneira de fazer isso que afeta a forma como vemos as coisas. Assim, aprender um novo idioma é em certo sentido, aprender uma nova maneira de perceber a realidade. Essa é uma razão que pode ser tão difícil e tão diferente de outras formas de aprendizagem.
O próprio Jesus viveu numa cultura muito diferente da nossa, e até certo ponto, se revela na linguagem que ele falava, o aramaico (às vezes também referida como sírio). É uma língua semítica estreitamente relacionado com o hebraico e o árabe. Ele ainda é falado hoje em algumas partes isoladas do Iraque e da Síria, embora esteja gradualmente desaparecendo. Ela também é usado como língua litúrgica em vários ritos orientais das Igrejas Católicas e Ortodoxas.
Em certo sentido, entrando na língua aramaica, é olhar através da lente que o próprio Jesus usou para perceber a realidade. Como a língua dos povos que cultivavam as terras, emprega imagens perto da terra e todas as coisas que crescem. É também um idioma permitindo múltiplas possibilidades de estar presente, ao mesmo tempo .. Por estas razões, alguns têm observado que é muito mais próximo das línguas dos povos indígenas do que para aqueles de culturas ocidentais modernas. Na verdade, pode nos ajudar a entender Jesus e pensar nele como uma pessoa nativa do Oriente Médio.
Infelizmente, a maioria de nós (eu incluído) não falam o aramaico, provavelmente, nunca sequer ouviu falar. Algumas palavras de que não aparecem em nossas traduções do Novo Testamento (por exemplo,Talitha Kum em Marcos 5:41 e atha maran em 1 Coríntios. 16:22). Mais importante, porém, os textos em aramaico das palavras de Jesus foram preservados pelas igrejas orientais. Embora os estudiosos das escrituras geralmente sustentam que o Novo Testamento foi escrito primeiro em grego, há boas razões para acreditar que o texto em aramaico (conhecido como Peshitta) pode refletir com mais precisão as palavras que o próprio Jesus falou. Isto é especialmente verdadeiro no caso da oração que chamamos de "Pai Nosso", que foi, sem dúvida,   mantida por cristãos de língua aramaica, em uma base regular e cuidadosamente preservada na tradição oral até o momento o texto escrito surgiu...
A oração que o próprio Jesus nos ensinou é o cerne de nossa espiritualidade. Ao refletir sobre o texto em aramaico, muitos significados possíveis vêm à luz. A tradução comum que usamos é limitada simplesmente porque é apenas uma das muitas possibilidades. Em aramaico, cada palavra pode evocar uma família inteira de imagens e nuances. As reflexões a seguir em cada phraseof a oração, então, meditar sobre algumas das dimensões mais sutis presentes em aramaico.
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Abwoon d'bwashmaya ("Pai nosso que estais no céu") provoca a imagem da criação, de dar à luz o universo. Abwoon pode realmente ser traduzido como "pai", mas pode igualmente ser processado como a palavra para os pais (em ou um sentido físico ou espiritual). A outro nível, apresenta a imagem do sopro divino (espírito) que flui para fora da unidade, criando toda a diversidade de formas. D'bwashmaya evoca as imagens de luz, som e vibração se espalhando e que permeia todos. Em essência, então, o "céu" é concebida não tanto como um lugar como uma dimensão da realidade que está presente em todos os lugares.
Algumas possíveis interpretações desta frase em sua totalidade seriam: "O Fonte da Radiacão, dançando e sobre tudo-que-é" ou "A respiração criativa, fluindo e fluindo através de todas as formas." Novamente, estes são apenas exemplos das muitas possibilidades que existem simultaneamente no texto original (que inclui também a tradução que normalmente orar). Ainda assim, eles nos desafiam a ser aberto a novas maneiras de conceber a Deus e ao céu.

Nethqadash shmakh ("Santificado seja o teu nome") apresenta a imagem de alguém se abaixar para limpar um espaço onde o sagrado pode habitar. Shmakh é derivada da mesma raiz da palavra aramaica para o céu, o que significa o nome e a manifestação concreta de energia criativa. A frase em sua totalidade poderia ser: "Suavizar o fundamento de nosso ser, e permitir um espaço para o plantio de sua presença" ou "Liberta-nos de todas as constrições, de modo a que a corrente da sua vida pode mudar em nós, sem obstáculo." Somos convidados aqui para deixar tudo, e permitir entrada de Deus nas nossas vidas, para varrer limpar a câmara do nosso coração. (aqui está presente a ideia de receptáculo, de vaso, de mãos em concha, de aceitação). Compensação simbólica de Jesus do templo ressoa fortemente com esta imagem. Até que ponto é que temos um mercado em nossos próprios seres? O que enche o espaço onde Deus quer habitar em nós?

Abrindo espaço para o sagrado nos prepara para a próxima etapa: Teytey malkuthakh . ("Venha o teu reino") Malkuthakh é uma palavra muito rica, e central para a mensagem de Jesus. Enquanto, normalmente traduzido como "reino", suas raízes são realmente feminina (assim "queendom" poderia ser mais preciso!). Ela transmite a idéia de princípios orientadores, de que nos capacita a avançar no rosto de todas as dificuldades, e de um potencial criativo pronto para ser realizado. Para mim, ela evoca a imagem da lâmina frágil de grama que lentamente se rompe o mais difícil de concreto. Teytey implica uma certa urgência na vinda, ou uma visão à espera de ser cumprida. A imagem é a de uma câmara nupcial, um lugar de novos começos. A frase poderia ser processado, então, como "Enche-nos com a tua criatividade, para que possamos estar habilitados a produzir o fruto de sua visão" ou "Em nossas profundezas, semear a sua semente com a seu-poder gerador, para que possamos ser parteiras para o teu Reino ". Esta parte da oração nos convida a caminhar pela vida com uma dignidade real, pronto para enfrentar as dificuldades com criatividade e esperança.

Nehwey tzevyanach aykanna d'bwashmaya aph b'arha ("Tua vontade seja feita na terra como no céu") pode ser considerado o coração da oração de Jesus. A "vontade" aqui referido denota um profundo desejo causando todo o nosso ser em direção a um objetivo com a certeza de que o esforço vai dar frutos. Em certo sentido, é viver como se a visão de Deus já eram uma realidade. "Terra" ( arha ) carrega um forte sentimento de solidez e apoio, é algo que está totalmente materializado. Aqui, então, oramos para que o sentido de "eu posso", expresso na linha acima ser colocado plenamente em ação. A frase em sua totalidade poderia ser: "Que cada uma de nossas acções esteja de acordo com seu desejo." ou "Mover-se para o batimento cardíaco do seu propósito, fazei-nos a personificação da sua compaixão." Em essência, nós oramos para que tudo o que fazemos, seja e é um ato de co-criação com Deus.

Hawvlan lachma d'sunqanan yaomana ("Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia") pede, não só de pão no sentido físico, mas também por tudo o que precisamos realmente prosperar. Em aramaico, a palavra "pão" ( lachma ) está diretamente relacionada com a palavra "sabedoria" ( Hochma ). Pedimos que lhe seja dado, mas também que ser trazido à luz das profundezas de nosso próprio eu. Em suma, rezamos: "dotar-nos com a sabedoria de produzir e compartilhar o que cada um precisa ser, crescendo e florescendo" ou "Com paixão e alma, vamos gerar a partir de dentro o que é necessário para sustentar a vida neste dia."

Washboqlan khaubayn (wakhtahayn) aykanna daph khnan shbwoqan l'khayyabayn ("E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aqueles que estão em débito conosco") transmite a idéia de desatar os nós de erros do passado. Perdoar é fazer as coisas voltarem ao seu estado de liberdade original. Isso é algo bem descrito no Antigo Testamento em termos do ano do Jubileu, onde tudo é devolvida aos seus proprietários originais. Nós somos chamados nesta linha de abandonar tudo o que nos impede de a realização do desejo de Deus: as nossas falhas, nosso desespero, nossas frustrações. Uma boa tradução poderia ser: "Soltem os fios emaranhados do destino que nos unem, como liberar os outros a partir do entrelaçamento de erros do passado" ou mesmo "Esvaziar-nos de esperanças e desejos frustrados, como restaurar outros para uma renovação da visão." Certamente, essa parte da oração nos chama, assim como para perdoar dívidas no sentido econômico. Como missionário, porém, eu particularmente gosto da idéia de deixar ir de frustrações e restaurar um sentido de visão. Em um mundo onde a mudança às vezes parece impossível, somos desafiados constantemente a renovar nossa esperança e para animar aqueles que caíram em desespero.

Na linha Wela tahlan l'nesyuna, ELA patzan min Bisha ("E não nos coloquem à prova, mas livrai-nos do mal"), pedimos que não nos deixarmos distrair do verdadeiro propósito de nossas vidas por que que é essencialmente trivial; pedimos que não sejamos seduzidos pela superficialidade e materialismo.
Em aramaico, "mal" ( Bisha ) é concebida em termos de uma ação que é verde, de uma fruta que esteja imatura (verde) ou podre (algo que não se aproveita, que prejudica a saúde). Isso nos chama a ser sensível ao momento em mão, para realizar a ação correta no momento certo. Por isso, rezamos: "Mas não vamos ser cativo para a incerteza, nem se apegam a perseguições infrutíferas" ou "Não nos deixe ser seduzido por aquela que nos desviem do nosso verdadeiro propósito, mas iluminar as oportunidades do momento presente."

Os finais de linha recapitula toda a oração: Metol dilakhie malkutha wahayla wateshbukhta l'Ahlam Almin, ameyn ("Porque o reino, o poder e a glória são suas, agora e para sempre, amém.") A palavra traduzida como "poder" ( hayla ) é a energia que dá e sustenta toda a vida. "Glória" ( teshbukhta ) evoca a imagem das coisas voltaram a um estado de harmonia e equilíbrio. A frase poderia ser traduzida como: "Porque você é o fundamento da visão fecunda, o nascimento de energia, e o cumprimento, como todos se reuniram e fizeram todo mais uma vez."

Meditando sobre a versão em aramaico da oração de Jesus pode ser muito desafiador, precisamente porque nos chama a re-examinar e repensar nossa espiritualidade. As imagens evocadas nos chamam para uma vida muito terra a terra de oração. Elas também nos tocam em um nível profundo, estimulando-nos a viver de forma mais simples, mais autêntica e mais justa. No entanto, a oração também reconhece que a conversão é um processo contínuo, algo que deve ser celebrado numa base diária. 
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Mark Hathaway é um autor, web designer, e "ecologista" freelance, estuda as inter-relações entre ecologia, economia, espiritualidade.
Aqueles interessados ​​em aprender mais sobre a versão aramaica de ditos de Jesus deve ler Orações do Cosmos por Neil Douglas-Klotz (Harper and Row, 1990)."

Poderei afirmar que é uma oração de evocação do poder divino. Do poder criativo e justo, que são expressões de Deus (YHWH e lê-se Iaorrué). O nome do Pai está contido no nome do Fillho. 

Modificar toda a entoação e vibração do seu nome, é um erro. Sabemos que o som produz vibrações diferentes. O som aliado à emoção mais ainda. Ao ponto de deixar diferentes cristalizações na água...(já foram feitas experiências nesse sentido) Conclui-se que a água  contém memória...Estão a ver agora a importância e conexão do baptismo e remissão dos pecados pela água! E o Homem é 70 a 80% água. Todos os seres vivos precisam de água! Sem água não existe vida! O som, cujo efeito é a vibração, é por isso gerador de modificação no ambiente aquático (celular). O som humano, e entoação e propósito que damos às palavras, são decisivos como Yahushua transmite ao dizer, o que torna impuro o Homem é o que sai da sua boca. Ora se não estamos na maioria das vezes a chama-lo pelo seu nome...acham que ele responde?

Shalom