quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A Rússia e a instrumentalização do antifascismo.

A Rússia e a instrumentalização do antifascismo: neonazismo, extremismos políticos e guerra híbrida

Ensaio de investigação histórica e política — outubro de 2026

Introdução — O paradoxo da «desnazificação»

A invasão russa da Ucrânia, iniciada em grande escala a 24 de fevereiro de 2022, foi justificada por Vladimir Putin, entre outros argumentos, com a necessidade de «desnazificar» o país. A narrativa oficial russa apresenta a Ucrânia como um Estado dominado por forças ultranacionalistas e neonazis, recorrendo à memória da Segunda Guerra Mundial, à colaboração de determinados nacionalistas ucranianos com a Alemanha nazi e à presença de grupos radicais nas estruturas militares ucranianas.

Esta narrativa parte de elementos históricos reais, mas transforma-os numa interpretação política abrangente que não corresponde à complexidade da sociedade ucraniana nem constitui, por si só, uma justificação para a invasão de um Estado soberano.

A questão fundamental não é determinar se existiram ou existem neonazis na Ucrânia. Existiram e existem grupos de extrema-direita, alguns com ideologias racistas e autoritárias. A questão é saber até que ponto a propaganda russa seleciona esses casos, amplia a sua importância e omite fenómenos equivalentes ou comparáveis no próprio território russo.

A contradição torna-se especialmente relevante quando se considera a existência de organizações neonazis russas, a participação de militantes da extrema-direita russa na guerra, as relações entre certos movimentos radicais russos e ucranianos e a utilização de redes extremistas para objetivos políticos e militares.

O ensaio desenvolve, por isso, cinco questões interligadas: a evolução das reivindicações territoriais russas sobre a Ucrânia; a utilização política da memória antifascista soviética; a presença de neonazis e outros extremistas na Rússia e na Ucrânia; a circulação de militantes entre os dois países; e a utilização de operações de influência, desinformação e outros instrumentos de guerra híbrida.

A análise não pressupõe que todos os grupos extremistas sejam controlados pelo Estado russo, nem que todas as correntes políticas críticas do Ocidente façam parte de operações de influência estrangeira. Procura, antes, distinguir as afinidades ideológicas, as relações pessoais, a cooperação operacional, a instrumentalização política e a direção estatal comprovada.

1. A questão territorial: a Ucrânia antes de Putin e a contestação da soberania ucraniana

A política russa em relação à soberania territorial da Ucrânia não começou com a presidência de Vladimir Putin. Durante a década de 1990, quando a Federação Russa era governada por Boris Ieltsin, já existiam conflitos políticos sobre o estatuto da Crimeia e de Sebastopol.

Em julho de 1993, o Soviete Supremo russo aprovou uma resolução que reivindicava Sebastopol como território russo. A iniciativa foi contestada pela Ucrânia e provocou tensões diplomáticas. O episódio demonstra que a contestação de determinadas fronteiras herdadas da dissolução da União Soviética antecede a ascensão de Putin.

Fonte histórica: United Press International, 9 de julho de 1993 — «Russian lawmakers claim sovereignty over Ukrainian port».

URL: https://www.upi.com/Archives/1993/07/09/Russian-lawmakers-claim-sovereignty-over-Ukrainian-port/6360742190400/

Em 1996, a Duma russa voltou a aprovar uma declaração que contestava a soberania ucraniana sobre Sebastopol. A persistência destas reivindicações evidencia que a questão territorial não pode ser explicada apenas como uma reação recente à expansão da NATO ou às decisões políticas tomadas em Kyiv depois de 2014.

Fonte: Jamestown Foundation, «Duma Explicitly Claims Sevastopol for Russia».

URL: https://jamestown.org/article/duma-explicitly-claims-sevastopol-for-russia/

Estes episódios não demonstram que todos os dirigentes russos dos anos 1990 partilhassem um projeto uniforme de conquista territorial. Demonstram, porém, a existência de uma corrente política e institucional que contestava a consolidação da soberania ucraniana em zonas consideradas estratégicas para os interesses russos.

Com Putin, esta tensão adquiriu uma dimensão mais sistemática. A centralidade da Ucrânia na conceção russa de segurança, identidade histórica e influência regional tornou-se particularmente visível nos conflitos sobre a orientação externa de Kyiv.

Na cimeira de Bucareste de abril de 2008, a NATO declarou que a Ucrânia e a Geórgia se tornariam membros da Aliança. A declaração não fixou uma data de adesão, mas contribuiu para aprofundar a oposição russa à aproximação dos dois países à NATO.

Fonte primária: NATO, Bucharest Summit Declaration, 3 de abril de 2008.

URL: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2008/04/03/bucharest-summit-declaration

É importante não confundir a oposição russa à adesão da Ucrânia à NATO com uma autorização jurídica para alterar fronteiras pela força. São questões distintas. A existência de uma disputa estratégica não elimina a soberania de um Estado nem legitima a anexação do seu território. As próprias acções russas na Chechénia, motivaram os países vizinhos a procurar alianças de segurança no ocidente.

A leitura histórica ganha profundidade quando se observa que a política russa em relação à Ucrânia combina preocupações de segurança, interesses militares, reivindicações territoriais e uma conceção de proximidade histórica que, em determinados discursos oficiais, tende a diminuir a autonomia política ucraniana.

Em julho de 2021, Putin publicou o ensaio «On the Historical Unity of Russians and Ukrainians», no qual desenvolveu uma interpretação histórica centrada na unidade entre russos e ucranianos. O documento é relevante para compreender a visão do Kremlin sobre a identidade nacional ucraniana e a sua relação com a Rússia.

Fonte primária: Kremlin, 12 de julho de 2021.

URL: https://en.kremlin.ru/events/president/news/66181

O texto não é, isoladamente, prova de que a invasão de 2022 estivesse inevitavelmente decidida nessa data. Constitui, contudo, uma fonte primária para estudar a forma como Putin enquadra historicamente a Ucrânia e como essa interpretação se relaciona com a oposição russa à sua plena autonomia estratégica.

2. Yanukovych, a aproximação à União Europeia e a crise de 2013–2014

A crise ucraniana de 2013–2014 não pode ser reduzida a uma operação ocidental nem a uma revolta exclusivamente nacionalista. Resultou da convergência de fatores políticos, económicos e sociais, incluindo a corrupção, o funcionamento das instituições, a disputa entre orientações externas e o uso da força contra manifestantes.

Em novembro de 2013, o governo de Viktor Yanukovych suspendeu os preparativos para a assinatura do Acordo de Associação com a União Europeia. A decisão ocorreu depois de meses de negociações e num contexto de pressão económica e política russa contra a aproximação de Kyiv à UE.

A decisão desencadeou os protestos conhecidos como Euromaidan. A repressão, a escalada dos confrontos e o colapso da autoridade governamental transformaram a crise numa mudança política de grande dimensão.

Fonte: Centre for Eastern Studies (OSW), «Ukraine Withdraws from Signing Association Agreement in Vilnius: Motives and Consequences», 27 de novembro de 2013.

URL: https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/analyses/2013-11-27/ukraine-withdraws-signing-association-agreement-vilnius-motives-and

A presença de nacionalistas radicais e de grupos de extrema-direita nos protestos e, posteriormente, em algumas formações voluntárias armadas é um elemento real desta história. No entanto, não deve ser confundida com a totalidade do movimento de protesto nem com a composição política da sociedade ucraniana. 

A extrema-direita participou na crise, mas não foi a única força que a produziu. A mobilização incluiu setores liberais, conservadores, nacionalistas, grupos cívicos e cidadãos sem filiação partidária, unidos por motivos que variavam entre a oposição à corrupção, a defesa de uma orientação europeia e a contestação da violência estatal.

Depois da queda de Yanukovych, a anexação russa da Crimeia e a guerra no Donbas alteraram profundamente o ambiente político e militar. O aparecimento de unidades voluntárias, algumas provenientes de meios nacionalistas, ocorreu num contexto de emergência de segurança e de insuficiência inicial das capacidades militares ucranianas.

Esta sequência é indispensável para compreender a evolução dos grupos radicais e dos grupos separatistas com a famosa fita de São Jorge: a sua presença precedeu a invasão em grande escala de 2022, mas o conflito iniciado em 2014 também criou condições para a sua mobilização, expansão e posterior integração parcial nas estruturas oficiais de ambos os lados do conflito.

3. Neonazismo e violência racista na Rússia

A narrativa oficial russa sobre a «desnazificação» da Ucrânia omite frequentemente a existência de movimentos neonazis e de violência racista no próprio território russo.

A Rússia tem uma história documentada de organizações ultranacionalistas, grupos skinhead neonazis, violência contra minorias étnicas e migrantes, antissemitismo e ataques contra opositores ideológicos. A existência destes fenómenos não significa que o Estado russo seja, em todos os seus aspetos, um regime neonazi. Significa que o neonazismo não é uma realidade exclusivamente ucraniana e que a propaganda oficial utiliza critérios seletivos ao decidir que manifestações de extremismo merecem atenção.

O Centro SOVA, organização de investigação que acompanha o nacionalismo radical, a xenofobia e a violência motivada pelo ódio na Rússia, documentou a persistência e a evolução destes fenómenos.

No relatório sobre 2024, publicado em fevereiro de 2025, o SOVA registou 259 vítimas de violência motivada por ideologia, uma das quais morreu. O centro assinalou um aumento significativo relativamente aos 123 casos de vítimas registados em 2023, sublinhando a recuperação de padrões de violência racista associados a grupos juvenis de extrema-direita.

Os números são resultados da metodologia de monitorização do SOVA, não uma contagem exaustiva de todos os crimes ocorridos na Rússia. O próprio centro explica as limitações dos dados disponíveis.

Fonte: Natalia Yudina, SOVA Center, «Neo-Nazis on the Rise: Hate Crimes and Countering Them in Russia in 2024», 28 de fevereiro de 2025.

URL: https://www.sova-center.ru/en/xenophobia/reports-analyses/2025/02/d47102/

O relatório descreve ataques contra pessoas identificadas pelos agressores como estrangeiros, indivíduos de aparência não eslava, migrantes, pessoas sem abrigo e outros grupos vulneráveis. Regista ainda a utilização de vídeos de agressões em canais de extrema-direita, que servem para exibir a violência e reforçar a identidade dos grupos.

Estes dados são importantes por duas razões. Em primeiro lugar, demonstram que o neonazismo e a violência xenófoba continuaram a existir na Rússia durante o período em que o Kremlin intensificava a sua retórica antifascista sobre a Ucrânia. Em segundo lugar, ajudam a distinguir o discurso oficial do Estado da realidade social e política do país.

A relação entre o Estado russo e a extrema-direita exige, ainda assim, uma análise mais cuidadosa do que uma simples acusação de hipocrisia. A existência de grupos neonazis no território russo não prova que sejam todos patrocinados pelo Kremlin. Da mesma forma, a repressão de determinadas organizações não demonstra que o Estado combata de maneira coerente todas as formas de extremismo. Em alguns casos, está documentada alguma permissibilidade das autoridades. 

O problema analítico está na seletividade: grupos ou discursos podem ser reprimidos, tolerados ou mobilizados de forma diferente consoante os seus objetivos, a sua relação com o poder e o contexto político.

Fonte complementar: SOVA Center, arquivo de relatórios sobre xenofobia e nacionalismo radical na Rússia.

URL: https://www.sova-center.ru/en/xenophobia/reports-analyses/

4. Extremistas russos na guerra e o Movimento Imperial Russo

A participação de organizações de extrema-direita russas na guerra contra a Ucrânia constitui uma das contradições mais relevantes da narrativa de «desnazificação».

Um exemplo é o Movimento Imperial Russo (Russian Imperial Movement, RIM), uma organização ultranacionalista e monárquica que procura restaurar uma ordem imperial russa e que mantém ligações com redes de extrema-direita internacionais. O seu braço paramilitar é conhecido como Legião Imperial Russa (Russian Imperial Legion).

Uma análise do Combating Terrorism Center da Academia Militar de West Point documenta a atividade do RIM na guerra da Ucrânia, desde o conflito iniciado em 2014 até à invasão em grande escala de 2022. O estudo descreve a participação de membros da Legião Imperial Russa nas operações militares e as relações da organização com outros grupos radicais.

O RIM não deve ser classificado de forma simplista como uma cópia exata do nazismo alemão: a sua ideologia tem uma matriz imperial, monárquica, ultranacionalista e ortodoxa. Contudo, a organização promove uma visão autoritária e expansionista e mantém relações com redes internacionais de extrema-direita.

Fonte: Lucas Webber e Alec Bertina, Combating Terrorism Center, West Point, «The Russian Imperial Movement in the Ukraine Wars: 2014–2023», agosto de 2023.

URL: https://ctc.westpoint.edu/the-russian-imperial-movement-in-the-ukraine-wars-2014-2023/

O estudo descreve igualmente relações entre o RIM e o grupo Rusich, conhecido pela sua ideologia neonazi e pela participação nas hostilidades na Ucrânia ao lado das forças russas ou separatistas pró-russas.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra o grupo Rusich e indivíduos associados, identificando a organização como uma formação paramilitar neonazi que participou na guerra na Ucrânia.

Fonte primária: U.S. Department of the Treasury, comunicado sobre sanções relacionadas com a Rússia e o grupo Rusich.

URL: https://home.treasury.gov/news/press-releases/jy0954

Estes casos mostram que a participação de extremistas na guerra não está limitada ao lado ucraniano. Grupos russos de extrema-direita participaram nas operações militares, desenvolveram redes de recrutamento e estabeleceram contactos internacionais.

Importa, porém, distinguir três realidades: a existência de organizações extremistas russas, a sua participação na guerra do lado russo e a natureza exata das suas relações com as autoridades. A participação no mesmo campo militar não prova, por si só, uma cadeia de comando direta entre cada grupo e os serviços secretos russos.

O estudo do RIM é especialmente elucidativo porque descreve uma organização que apoia os objetivos expansionistas russos, mas mantém também interesses e convicções próprias. As relações entre movimentos ultranacionalistas e o Estado podem envolver convergência estratégica sem equivaler a controlo absoluto.

5. A extrema-direita ucraniana e as ligações a indivíduos oriundos da Rússia

A análise da extrema-direita ucraniana deve incluir não apenas a sua ideologia, mas também os percursos pessoais dos militantes, as relações transnacionais e a circulação de quadros entre organizações radicais russas e ucranianas.

Esta dimensão é particularmente relevante para compreender o movimento Azov. A sua formação inicial, em 2014, envolveu ativistas provenientes de ambientes ultranacionalistas ucranianos, alguns dos quais tinham antecedentes racistas ou neonazis. A evolução posterior da unidade, incluindo a sua integração nas estruturas oficiais de defesa ucranianas, não elimina a necessidade de examinar as suas origens.

Mas também seria historicamente incompleto descrever o desenvolvimento destes ambientes como um fenómeno inteiramente isolado das redes russas de extrema-direita.

Uma análise do Centre for Eastern Studies (OSW), publicada em fevereiro de 2026, identifica vários indivíduos associados ao movimento Azov com percursos ligados à Rússia e a organizações de extrema-direita russas.

Entre os casos referidos estão:

  • Alexei Levkin, veterano do regimento Azov, ideólogo da organização Centuria e dirigente da Wotan Jugend, organização neonazi originária da Rússia.

  • Sergei Korotkikh, nascido na União Soviética e criado na Bielorrússia, que esteve associado a grupos de extrema-direita e ao movimento Azov. O OSW refere o seu passado de formação na academia do KGB bielorrusso e acusações de envolvimento em crimes. Essas acusações devem ser distinguidas de condenações judiciais comprovadas.

  • Denis Kapustin, também conhecido como Denis Nikitin, nascido em Moscovo e ligado a ambientes da extrema-direita, que se tornou comandante do Corpo de Voluntários Russos, uma formação de cidadãos russos que combate do lado ucraniano contra as forças russas.

O estudo do OSW também refere que Andriy Biletsky, figura central na formação inicial do Azov, se apresentava, antes da intervenção russa de 2014, como defensor de uma confederação com a Rússia. Este dado ajuda a compreender a complexidade dos percursos ideológicos e das relações políticas existentes nesses meios antes de a guerra alterar as alianças.

Fonte: Centre for Eastern Studies (OSW), «Forging a Nationalist Model Army: The Political Prospects of the Azov Movement», 11 de fevereiro de 2026.

URL: https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2026-02-11/forging-nationalist-model-army-political-prospects-azov

Esta fonte é particularmente importante para evitar uma descrição demasiado simples da extrema-direita ucraniana. Demonstra que figuras com antecedentes russos ou ligações a redes radicais russas estiveram associadas a determinados ambientes do movimento Azov. Não demonstra, contudo, que o Kremlin tenha criado ou dirigido o Azov, nem que todos os grupos neonazis ucranianos tenham sido fundados por indivíduos ligados à Rússia.

A distinção é essencial. A presença de militantes russos em organizações ucranianas pode refletir a circulação transnacional de ideologias, as relações pessoais entre ativistas, a procura de oportunidades de combate ou a convergência de objetivos políticos. Para demonstrar uma operação dos serviços secretos russos seria necessário apresentar provas específicas de recrutamento, financiamento, instruções ou comando.

A investigação académica sobre as origens do Azov também sublinha a necessidade de analisar o contexto político e militar de 2014, as organizações que precederam a formação da unidade e a ideologia de alguns dos seus primeiros membros.

Fonte académica: Andreas Umland, investigação sobre as origens do movimento Azov, publicada em Terrorism and Political Violence.

URL: https://doi.org/10.1080/09546553.2018.1555974

Versão e informação bibliográfica:

https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3354176

A circulação de militantes entre a Rússia e a Ucrânia não se limitou, aliás, a indivíduos que passaram a combater do lado ucraniano. A guerra iniciada em 2014 atraiu numerosos nacionalistas russos para o campo separatista pró-russo do Donbas.

O Centre for Eastern Studies analisou, em dezembro de 2014, a relação entre o nacionalismo russo e a política do Kremlin na Ucrânia, incluindo a mobilização de militantes e a convergência entre determinados movimentos nacionalistas e os objetivos territoriais russos.

Fonte: OSW, «Russian Nationalists and the Kremlin’s Policy in Ukraine», 29 de dezembro de 2014.

URL: https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2014-12-29/russian-nationalists-kremlins-policy-ukraine

A conclusão é que as redes extremistas da região não podem ser entendidas como universos nacionais hermeticamente separados. Houve circulação de pessoas, ideologias e contactos entre ambientes russos e ucranianos, embora diferentes grupos tenham acabado por combater em lados opostos.

A existência destas ligações não torna equivalentes todas as organizações envolvidas, nem elimina a responsabilidade dos seus membros pelas próprias ações. Permite, porém, questionar uma narrativa que atribui o extremismo exclusivamente ao adversário e apresenta a Rússia como um agente antifascista sem contradições internas.

6. A memória soviética da Segunda Guerra Mundial como instrumento político

A vitória soviética sobre a Alemanha nazi ocupa um lugar central na memória histórica russa. A guerra causou perdas humanas imensas e deixou uma marca profunda na sociedade soviética. A comemoração da vitória tem, por isso, uma dimensão histórica e familiar genuína.

O problema surge quando essa memória é transformada num instrumento de legitimação política que reduz os conflitos contemporâneos a uma repetição da luta entre a União Soviética e o nazismo.

O Kremlin utiliza frequentemente a memória da Segunda Guerra Mundial para enquadrar adversários externos como herdeiros do fascismo. Esta estratégia confere uma autoridade moral especial à política russa, apresentando-a como continuação da luta histórica contra o nazismo.

O discurso de «desnazificação» da Ucrânia insere-se neste padrão. Ao estabelecer uma continuidade entre grupos nacionalistas ucranianos históricos, organizações de extrema-direita contemporâneas e o Estado ucraniano, a narrativa oficial transforma um fenómeno político específico numa caracterização geral do país.

O uso da história não é exclusivo da Rússia. Estados e movimentos políticos de diferentes orientações recorrem à memória coletiva para legitimar políticas atuais. A particularidade do caso russo está na centralidade que a vitória soviética e a memória da guerra ocupam na identidade oficial do Estado e na sua legitimação política.

A investigação sobre a política da memória na Rússia contemporânea permite analisar como a recordação da guerra, a identidade nacional e a legitimação do poder se relacionam.

Fonte académica: British Journal of Sociology, investigação sobre a política da memória da Segunda Guerra Mundial e a identidade política russa.

URL: https://doi.org/10.1111/1468-4446.13171

A contradição central não consiste em a Rússia comemorar a vitória sobre o nazismo, mas em usar essa memória como argumento para deslegitimar a existência política do adversário, enquanto minimiza ou enquadra de forma seletiva os extremismos presentes no seu próprio território e nas forças que combatem do seu lado.

7. Da propaganda à guerra híbrida: o caso dos Surkov Leaks

A guerra híbrida é um conceito utilizado para descrever estratégias que combinam instrumentos militares e não militares, incluindo pressão económica, operações cibernéticas, propaganda, desinformação, influência política e atuação por intermediários.

O termo não significa que todas estas atividades constituam uma única operação centralizada. Também não é exclusivo da Rússia: diferentes Estados recorrem a instrumentos de influência, espionagem, pressão e comunicação estratégica. A análise deve, portanto, identificar os métodos concretos, as entidades envolvidas e a evidência disponível.

No caso russo, uma parte importante da investigação sobre operações de influência na Ucrânia incidiu sobre os chamados Surkov Leaks: conjuntos de mensagens eletrónicas atribuídas a Vladislav Surkov, antigo conselheiro do Kremlin, e a pessoas do seu círculo, divulgados por ativistas cibernéticos ucranianos em 2016 e 2017.

Em setembro de 2019, a UATV transmitiu uma entrevista conduzida por Kari Odermann com Alya Shandra, editora-chefe do Euromaidan Press e uma das autoras de um relatório sobre estes documentos. A entrevista abordou a utilização de redes políticas, contactos locais e instrumentos de influência para desestabilizar a Ucrânia.

Fonte direta: UATV, «Surkov Leaks: The Inner Workings of Russia’s Hybrid War in Ukraine», 11 de setembro de 2019.

URL: https://uatv.ua/en/surkov-leaks-inner-workings-russias-hybrid-war-ukraine/

É importante atribuir corretamente os papéis: Kari Odermann era a entrevistadora; Alya Shandra era uma das autoras do relatório discutido. As conclusões do estudo não devem ser atribuídas pessoalmente à entrevistadora.

Os documentos conhecidos como Surkov Leaks são relevantes para investigar as relações entre o poder russo e atores políticos locais. Contudo, como acontece com documentos divulgados por terceiros, a autenticidade, a integridade e o significado de cada mensagem devem ser avaliados individualmente. A existência de um conjunto de emails atribuído a um dirigente não torna automaticamente autêntico cada documento divulgado, nem prova que todas as ações mencionadas tenham sido executadas.

O caso ilustra uma característica importante da guerra híbrida: a tentativa de alcançar objetivos estratégicos por meios que ficam abaixo do limiar de uma guerra convencional aberta, explorando divisões políticas internas, redes de influência e vulnerabilidades institucionais.

Em maio de 2024, o Conselho do Atlântico Norte declarou estar preocupado com atividades russas em território aliado, incluindo sabotagem, violência, ciberoperações, interferência eletrónica, desinformação e outras operações híbridas, algumas realizadas através de intermediários.

Fonte primária: NATO, «Statement by the North Atlantic Council on Recent Russian Hybrid Activities», 2 de maio de 2024.

URL: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2024/05/02/statement-by-the-north-atlantic-council-on-recent-russian-hybrid-activities

Esta declaração é uma fonte oficial sobre a avaliação da NATO. Deve ser lida como a posição institucional da Aliança, não como uma investigação independente de cada incidente referido. Ainda assim, documenta a preocupação formal dos aliados com a utilização de instrumentos não convencionais e de intermediários em operações atribuídas à Rússia.

A guerra híbrida não se reduz à propaganda. Pode incluir ações clandestinas, sabotagem, operações cibernéticas, apoio a atores locais, exploração de conflitos sociais e campanhas de influência dirigidas a audiências estrangeiras. A atribuição de cada atividade exige evidência própria: semelhanças ideológicas ou a repetição de narrativas favoráveis a Moscovo não são, por si só, prova de direção operacional russa, mas acabam por amplificar as narrativas do Kremlin.

8. A instrumentalização da extrema-esquerda e da extrema-direita

Uma das dimensões mais relevantes das operações de influência contemporâneas é a possibilidade de explorar movimentos políticos que, apesar de se encontrarem em extremos ideológicos opostos, podem convergir em determinadas posições sobre a guerra, a NATO, as sanções ou o apoio militar à Ucrânia.

Esta convergência não significa que a extrema-esquerda e a extrema-direita sejam equivalentes, nem que todos os seus membros atuem conscientemente em benefício de um Estado estrangeiro. Significa que atores externos podem identificar narrativas que já existem nesses meios e amplificá-las para enfraquecer o apoio político ao adversário.

Um estudo de Brian McQuinn, Marcus Kolga, Cody Buntain e Laura Courchesne, publicado em junho de 2024 na revista International Journal, examinou campanhas de influência russas dirigidas a audiências canadianas na rede social X.

Os investigadores mapearam um ecossistema de pelo menos 200 mil contas que amplificavam conteúdos relacionados com narrativas russas sobre a guerra e identificaram 90 contas com influência desproporcionada. Entre as contas canadianas influentes que conseguiram classificar, 92,6% foram categorizadas como pertencendo à extrema-direita ou à extrema-esquerda.

Os autores assinalam que a classificação ideológica envolve uma componente interpretativa. O estudo identifica redes de amplificação e a exploração de comunidades políticas; não demonstra que cada utilizador estivesse consciente de participar numa operação russa, que recebesse financiamento de Moscovo ou que obedecesse a instruções de um serviço secreto.

Fonte académica: Brian McQuinn, Marcus Kolga, Cody Buntain e Laura Courchesne, «Russia Weaponization of Canada’s Far Right and Far Left to Undermine Support for Ukraine», International Journal, volume 79, número 2, 2024.

URL do artigo:

https://doi.org/10.1177/00207020241257635

Texto integral em acesso aberto:

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11361841/

O estudo identifica narrativas que procuram responsabilizar a NATO pela guerra, apresentar a Ucrânia como um Estado corrupto ou dominado por nazis, atribuir às sanções ocidentais os custos económicos e defender o fim da ajuda militar. Algumas destas mensagens podem surgir espontaneamente em debates políticos legítimos. O elemento relevante para a análise de influência é a sua organização, amplificação sistemática, adaptação a públicos específicos e articulação com campanhas pró-Kremlin.

A extrema-direita pode ser mobilizada através do nacionalismo, do anti-imigração, do isolacionismo e da hostilidade à NATO. A extrema-esquerda pode ser abordada através do anti-imperialismo, da oposição à política externa norte-americana, da crítica ao complexo militar-industrial ou da defesa de negociações imediatas. Em ambos os casos, uma operação de influência pode selecionar elementos existentes no discurso local e utilizá-los para promover um objetivo estratégico externo.

No entanto, há uma distinção fundamental entre a coincidência de posições e a participação numa operação. Uma pessoa pode opor-se à NATO, criticar o governo ucraniano, defender uma solução diplomática ou contestar o envio de armas sem estar ligada à Rússia. A demonstração de influência estrangeira exige mais do que discordância política: requer análise de redes, padrões de amplificação, coordenação, proveniência dos conteúdos e, quando disponível, evidência financeira ou operacional.

A conclusão do estudo canadiano é relevante porque demonstra empiricamente que redes de diferentes orientações ideológicas podem ser utilizadas para ampliar narrativas favoráveis aos objetivos russos. Não autoriza, contudo, a generalização automática dos resultados a todos os países ocidentais ou a todos os movimentos de extrema-esquerda e extrema-direita.

O caso oferece uma metodologia de investigação útil: analisar os conteúdos e as redes que os propagam, identificar os mecanismos de amplificação e distinguir os participantes conscientes dos utilizadores que reproduzem mensagens sem conhecer a sua origem.

9. A relação entre extremismo, Estado e serviços de segurança

As relações entre organizações extremistas e o Estado russo constituem uma das questões mais difíceis de investigar. A presença de militantes de extrema-direita em conflitos apoiados por Moscovo, a tolerância de determinados grupos, a existência de contactos pessoais e a convergência de objetivos não provam automaticamente que todos esses grupos sejam instrumentos diretos do Kremlin. Contudo vários elementos russos já foram identificados em diferentes manifestações em diferentes locais e em diferentes períodos de tempo, o que levanta suspeitas a quem analisa este tipo de fenómenos.

É necessário distinguir pelo menos quatro níveis de relação:

  1. Afinidade ideológica: um grupo partilha objetivos nacionalistas, autoritários ou expansionistas com o poder político.

  2. Tolerância ou utilização política: as autoridades permitem certas atividades ou aproveitam os efeitos políticos de um movimento, sem necessariamente o controlar.

  3. Cooperação operacional: existem contactos, apoio material, coordenação ou colaboração concreta entre atores estatais e não estatais.

  4. Direção ou controlo: há evidência de instruções, financiamento condicionado, cadeia de comando ou outra relação que permita atribuir ao Estado a condução de uma operação.

Estes níveis não são intercambiáveis. A investigação sobre serviços de informações exige especial prudência, porque as relações clandestinas são difíceis de observar e as alegações públicas podem servir interesses políticos.

No caso russo, o ecossistema de grupos ultranacionalistas e paramilitares inclui organizações com objetivos próprios, algumas das quais cooperam com o esforço de guerra, enquanto outras podem entrar em conflito com as autoridades. A análise do RIM pelo Combating Terrorism Center, por exemplo, descreve uma organização expansionista que apoia a guerra, mas mantém uma ideologia e uma agenda próprias.

Fonte:

https://ctc.westpoint.edu/the-russian-imperial-movement-in-the-ukraine-wars-2014-2023/

A existência de organizações com motivações autónomas não exclui a possibilidade de instrumentalização estatal. Pelo contrário, a utilização de intermediários pode ser estrategicamente útil precisamente porque permite ao Estado beneficiar da atividade de atores que não controla em todos os aspetos.

Mas a conclusão deve ser estabelecida caso a caso. Para atribuir a criação de uma organização a um serviço de informações, seria necessário identificar provas sobre os seus fundadores, o financiamento inicial, as ligações operacionais e a cadeia de decisão. Sem essa evidência, a formulação correta é que existe uma relação documentada, uma convergência de interesses ou uma hipótese que requer investigação, não uma certeza de controlo clandestino. No entanto surgem cada vez mais suspeitas da utilização de grupos criminosos em variadas ações de destabilização cujo vector pende para leste. 

Este cuidado metodológico é particularmente importante quando se analisa a alegação de que grupos neonazis ucranianos foram criados por indivíduos ligados à Rússia. As fontes sobre o Azov documentam percursos individuais e ligações a redes radicais russas, mas não sustentam uma generalização segundo a qual todos os grupos neonazis ucranianos teriam origem russa ou seriam projetos dos serviços secretos russos.

As investigações procuraram demonstrar as ligações efetivas, não substituí-las por inferências baseadas na ideologia ou na nacionalidade de um militante.

10. Conclusão. O antifascismo como narrativa de legitimação e instrumento de influência

A análise histórica e política desenvolvida neste ensaio permite retirar várias conclusões.

Em primeiro lugar, a contestação russa da soberania ucraniana tem antecedentes anteriores à presidência de Vladimir Putin. As reivindicações sobre Sebastopol nos anos 1990, os conflitos sobre a orientação externa de Kiev e a centralidade da Ucrânia na conceção russa de segurança ajudam a compreender a evolução da política de Moscovo.

Em segundo lugar, o neonazismo não é um fenómeno exclusivamente ucraniano. A Rússia tem uma história documentada de violência racista, organizações neonazis e movimentos ultranacionalistas. Alguns grupos de extrema-direita russos participaram diretamente na guerra contra a Ucrânia, incluindo formações identificadas por fontes oficiais norte-americanas e por investigação académica.

Em terceiro lugar, as redes extremistas russas e ucranianas não se desenvolveram em completo isolamento. Existem casos documentados de indivíduos oriundos da Rússia ou com ligações a organizações radicais russas que estiveram associados a ambientes do movimento Azov. Estes percursos devem ser integrados na análise histórica, sem serem transformados numa alegação não demonstrada de que o Kremlin criou ou dirigiu todos os grupos neonazis ucranianos.

Em quarto lugar, a guerra híbrida inclui a utilização de propaganda, desinformação, redes de influência e intermediários. Os Surkov Leaks e a investigação sobre campanhas dirigidas a audiências ocidentais mostram a importância de estudar os mecanismos concretos de influência, a sua proveniência e a forma como se relacionam com os objetivos estratégicos russos.

Em quinto lugar, a investigação publicada sobre o Canadá demonstra que redes de extrema-direita e de extrema-esquerda podem amplificar narrativas favoráveis aos objetivos russos. Isso não significa que todos os seus participantes sejam agentes conscientes, nem que qualquer posição crítica da NATO ou da ajuda militar à Ucrânia constitua propaganda estrangeira.

A instrumentalização do antifascismo pelo Kremlin deve, assim, ser analisada como uma estratégia política que combina memória histórica, legitimação da guerra e deslegitimação do adversário. A sua eficácia depende, em parte, da capacidade de transformar a existência real de grupos extremistas ucranianos numa caracterização geral do Estado ucraniano, enquanto os extremismos russos são ignorados, relativizados ou apresentados como fenómenos secundários.

A resposta a esta narrativa não deve consistir em negar a existência de neonazis na Ucrânia nem em afirmar, sem provas, que todos os grupos extremistas são dirigidos pela Rússia. Deve consistir em aplicar os mesmos critérios de análise a todos os atores, examinar as ligações documentadas e exigir evidência proporcional à gravidade de cada alegação.

A questão decisiva não é saber qual dos lados consegue apropriar-se com maior eficácia da memória antifascista. É saber como essa memória é mobilizada, que factos são selecionados ou omitidos e de que forma as narrativas históricas são convertidas em instrumentos de poder.

Bibliografia e fontes para investigação

História, território e política ucraniana

  1. United Press International, «Russian lawmakers claim sovereignty over Ukrainian port», 9 de julho de 1993.
    https://www.upi.com/Archives/1993/07/09/Russian-lawmakers-claim-sovereignty-over-Ukrainian-port/6360742190400/

  2. Jamestown Foundation, «Duma Explicitly Claims Sevastopol for Russia».
    https://jamestown.org/article/duma-explicitly-claims-sevastopol-for-russia/

  3. NATO, Bucharest Summit Declaration, 3 de abril de 2008.
    https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2008/04/03/bucharest-summit-declaration

  4. Kremlin, Vladimir Putin, «On the Historical Unity of Russians and Ukrainians», 12 de julho de 2021.
    https://en.kremlin.ru/events/president/news/66181

  5. Centre for Eastern Studies (OSW), «Ukraine Withdraws from Signing Association Agreement in Vilnius: Motives and Consequences», 27 de novembro de 2013.
    https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/analyses/2013-11-27/ukraine-withdraws-signing-association-agreement-vilnius-motives-and

Neonazismo e extrema-direita russa e ucraniana

  1. SOVA Center, Natalia Yudina, «Neo-Nazis on the Rise: Hate Crimes and Countering Them in Russia in 2024», 28 de fevereiro de 2025.
    https://www.sova-center.ru/en/xenophobia/reports-analyses/2025/02/d47102/

  2. SOVA Center, arquivo de relatórios sobre xenofobia e nacionalismo radical.
    https://www.sova-center.ru/en/xenophobia/reports-analyses/

  3. U.S. Department of the Treasury, comunicado sobre sanções relacionadas com o grupo Rusich.
    https://home.treasury.gov/news/press-releases/jy0954

  4. Lucas Webber e Alec Bertina, Combating Terrorism Center, West Point, «The Russian Imperial Movement in the Ukraine Wars: 2014–2023», agosto de 2023.
    https://ctc.westpoint.edu/the-russian-imperial-movement-in-the-ukraine-wars-2014-2023/

  5. Centre for Eastern Studies (OSW), «Forging a Nationalist Model Army: The Political Prospects of the Azov Movement», 11 de fevereiro de 2026.
    https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2026-02-11/forging-nationalist-model-army-political-prospects-azov

  6. Andreas Umland, investigação sobre as origens do movimento Azov, Terrorism and Political Violence.
    https://doi.org/10.1080/09546553.2018.1555974

  7. Andreas Umland, versão e informação bibliográfica do estudo.
    https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3354176

  8. Centre for Eastern Studies (OSW), «Russian Nationalists and the Kremlin’s Policy in Ukraine», 29 de dezembro de 2014.
    https://www.osw.waw.pl/en/publikacje/osw-commentary/2014-12-29/russian-nationalists-kremlins-policy-ukraine

Guerra híbrida e operações de influência

  1. UATV, «Surkov Leaks: The Inner Workings of Russia’s Hybrid War in Ukraine», entrevista de Kari Odermann a Alya Shandra, 11 de setembro de 2019.
    https://uatv.ua/en/surkov-leaks-inner-workings-russias-hybrid-war-ukraine/

  2. NATO, «Statement by the North Atlantic Council on Recent Russian Hybrid Activities», 2 de maio de 2024.
    https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2024/05/02/statement-by-the-north-atlantic-council-on-recent-russian-hybrid-activities

  3. Brian McQuinn, Marcus Kolga, Cody Buntain e Laura Courchesne, «Russia Weaponization of Canada’s Far Right and Far Left to Undermine Support for Ukraine», International Journal, 79(2), 2024.
    https://doi.org/10.1177/00207020241257635

  4. Versão integral em acesso aberto do estudo de McQuinn e coautores.
    https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11361841/

  5. British Journal of Sociology, investigação sobre a política da memória da Segunda Guerra Mundial e a identidade política russa.
    https://doi.org/10.1111/1468-4446.13171

Nota metodológica

Este ensaio distingue fontes primárias, relatórios de organizações de investigação, estudos académicos e declarações institucionais. As fontes oficiais são utilizadas para documentar posições e decisões das entidades que as publicam; não são automaticamente tratadas como avaliações independentes. Os relatórios de investigação são interpretados à luz da sua metodologia e das limitações que os próprios autores identificam.

A existência de uma ligação pessoal, ideológica ou operacional entre indivíduos e organizações não demonstra, por si só, a existência de uma cadeia de comando estatal. Da mesma forma, a participação de militantes extremistas num conflito não permite atribuir a sua ideologia a toda a sociedade ou ao Estado em cujo território atuam.

As alegações de criação, financiamento ou direção clandestina de grupos por serviços de informações exigem provas específicas. Quando essas provas não estão disponíveis nas fontes consultadas, a conclusão deve permanecer limitada ao que está efetivamente documentado.

O objetivo é permitir ao leitor verificar as fontes originais, distinguir factos de interpretações e aprofundar cada uma das linhas de investigação sem depender exclusivamente das conclusões apresentadas neste ensaio.


Feliciano Vasa, 21 de Outubro de 2026




sábado, 10 de outubro de 2026

«Acautelai-vos, que ninguém vos engane.»

A advertência de Cristo, a expansão islâmica e os desafios que a Europa não deve ignorar

Estas foram as palavras de Jesus Cristo dirigidas aos seus discípulos quando lhes falou dos acontecimentos que haveriam de marcar o futuro. Uma advertência que atravessou os séculos e que continua a exigir dos cristãos discernimento, vigilância e capacidade para distinguir a verdade do engano, sobretudo quando este se apresenta revestido de linguagem religiosa.

Porque nem todos os que falam de paz procuram necessariamente a paz, nem todos os que invocam o nome de Deus estão ao serviço daquilo que Cristo ensinou. A história demonstra que a religião pode ser utilizada como instrumento de poder, mobilização política e legitimação de projetos que procuram subordinar a sociedade a uma determinada visão religiosa.

Hoje, num mundo marcado por conflitos, rivalidades geopolíticas e disputas pela influência religiosa, os cristãos precisam de olhar para os acontecimentos com lucidez. Não basta ouvir discursos sobre paz, reconciliação ou profecias bíblicas. É necessário examinar quem os profere, quais são os seus objetivos e que consequências poderão ter para a liberdade religiosa, para as instituições e para as gerações futuras.

A história que muitos cristãos desconhecem

Antes da expansão islâmica, o Egipto, a Síria, a Palestina e vastas regiões do Norte de África possuíam comunidades cristãs antigas e influentes. O Egipto era um dos grandes centros do cristianismo, a Síria acolhia importantes comunidades e tradições teológicas, e o Norte de África tinha produzido figuras fundamentais da história da Igreja, como Santo Agostinho de Hipona.

A partir do século VII, os exércitos dos primeiros califados conquistaram grande parte destes territórios. O domínio político muçulmano alterou progressivamente a composição religiosa dessas sociedades. Contudo, a islamização foi um processo prolongado, com ritmos diferentes de região para região, e não uma conversão imediata de todas as populações conquistadas.

As conquistas militares foram o início de uma transformação muito mais ampla. Ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs enfrentaram impostos específicos, desigualdades jurídicas, restrições religiosas e episódios de perseguição. Nalguns contextos ocorreram conversões forçadas; noutros, a transformação resultou de pressões sociais, incentivos económicos, assimilação cultural, decisões individuais e mudanças demográficas.

A história não deve ser simplificada. Nem todos os governantes muçulmanos trataram os cristãos da mesma maneira, e muitas comunidades cristãs sobreviveram durante séculos sob domínio islâmico. Mas seria igualmente errado apagar as conquistas militares, as perseguições e as restrições que acompanharam determinados períodos dessa expansão.

Os cristãos europeus precisam de conhecer esta história. Não para alimentar o ódio contra os muçulmanos de hoje, mas para compreender que sociedades profundamente cristãs podem sofrer transformações religiosas e culturais duradouras, sobretudo quando se alteram as estruturas de poder, as condições de liberdade e as relações entre comunidades.

A César o que é de César, a Deus o que é de Deus

Existe uma diferença fundamental entre a mensagem de Jesus Cristo e os modelos políticos que procuram subordinar a totalidade da vida civil a uma autoridade religiosa.

Quando Jesus declarou «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mateus 22:21), estabeleceu uma distinção que continua a ser essencial para a reflexão sobre a relação entre a autoridade civil e a consciência religiosa.

Esta passagem não instituiu, por si só, a separação moderna entre Igreja e Estado. A própria história cristã conheceu períodos em que o poder político e o poder religioso estiveram profundamente ligados, incluindo episódios de intolerância e perseguição. Mas as palavras de Cristo permitem questionar a pretensão de qualquer autoridade temporal de controlar integralmente a consciência humana e a sua relação com Deus.

O Islão e o cristianismo são religiões distintas, com conceções diferentes de Jesus, da revelação, da autoridade religiosa e da organização da sociedade. Embora partilhem algumas referências da tradição abraâmica, não são equivalentes na sua teologia nem na forma como diferentes correntes interpretam a relação entre religião e poder.

Em determinados sistemas islâmicos, a lei religiosa ocupa um lugar central na legislação e na organização do Estado. Noutros países de maioria muçulmana, a relação entre as instituições civis e religiosas assume formas diferentes. É precisamente essa diversidade que exige uma análise rigorosa.

O problema surge quando uma interpretação religiosa é transformada em instrumento de imposição política, quando a liberdade de consciência é restringida ou quando os direitos dos cristãos e de outras minorias ficam subordinados à pertença religiosa.

Uma sociedade livre tem de proteger o direito de cada pessoa a professar uma religião, a mudar de religião ou a não professar nenhuma. E tem de garantir que a lei civil protege todos os cidadãos, independentemente da sua fé.

Do passado ao presente: o que deve a Europa aprender?

É aqui que o paralelismo histórico se torna relevante.

A expansão dos primeiros califados e a realidade contemporânea europeia não são o mesmo fenómeno. A Europa atual não está a viver uma repetição das conquistas militares do século VII. Mas a história mostra por que razão as sociedades devem estar atentas aos movimentos que procuram transformar a ordem política, jurídica e cultural através de uma ideologia religiosa.

Na Europa de hoje, a questão não é a existência de cidadãos muçulmanos. Milhões de muçulmanos vivem em sociedades europeias, muitos nasceram nelas e participam normalmente na vida económica, social e política. A sua presença não constitui, por si só, uma ameaça aos valores europeus.

A questão é outra: que fazer perante correntes islamistas que defendem a subordinação da lei civil a uma interpretação religiosa, organizações jihadistas que recorrem à violência, movimentos que procuram restringir os direitos das mulheres ou discursos que recusam a igualdade jurídica entre cidadãos de diferentes religiões?

Estes fenómenos devem ser identificados e combatidos através da lei, da prevenção da radicalização, da defesa da liberdade de expressão e da proteção das instituições democráticas. Não se deve esperar que a violência ou a intimidação se tornem generalizadas para reconhecer um problema.

A Europa tem valores que merecem ser defendidos: a liberdade de consciência, a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão, a proteção das minorias e a separação entre a autoridade civil e a imposição religiosa. Estes princípios não pertencem exclusivamente aos cristãos, mas fazem parte da ordem constitucional de muitas sociedades europeias e foram moldados por uma história complexa, na qual o cristianismo teve uma influência profunda.

A advertência histórica não é que todos os muçulmanos pretendam destruir a Europa. É que nenhuma sociedade deve permitir que movimentos intolerantes, sejam religiosos ou políticos, utilizem as liberdades democráticas para eliminar as liberdades dos outros.

A tolerância não pode significar a aceitação passiva da intolerância. O respeito pela religião de alguém não obriga a aceitar a imposição dessa religião aos restantes cidadãos.

A falsa paz e a instrumentalização da fé

A palavra «paz» tem uma força moral evidente. Mas o simples facto de um partido, um dirigente ou uma organização utilizar essa palavra não demonstra que as suas propostas promovam uma paz duradoura.

Os cristãos devem examinar os objetivos, os meios e as consequências dos projetos que lhes são apresentados como parte de um desígnio divino. A fé não deve ser utilizada para retirar aos fiéis a capacidade de questionar dirigentes políticos, nem para transformar uma opção partidária numa obrigação espiritual.

O mesmo cuidado deve aplicar-se aos movimentos que recorrem a interpretações proféticas da Bíblia para justificar determinadas agendas no Médio Oriente. Defender Israel ou apoiar o povo judeu não significa, por si só, participar numa manipulação religiosa. O problema surge quando se pretende apresentar uma política concreta como vontade incontestável de Deus, tornando qualquer crítica equivalente a uma falta de fé.

Também é necessário investigar o apoio financeiro e político que Estados possam conceder a organizações extremistas. Quando existirem provas de financiamento, apoio logístico ou proteção política de movimentos violentos, esses factos devem ser expostos. Mas as responsabilidades devem ser atribuídas com base em evidências, e não em suspeitas generalizadas.

Aos cristãos cabe uma responsabilidade particular: não permitir que a sua fé seja instrumentalizada por interesses políticos, sejam eles provenientes do Médio Oriente, da Europa ou dos Estados Unidos.

Depois de Netanyahu: Yeshua Israel Ben David e o Gan Eden

É neste contexto que importa prestar atenção a Yeshua Israel Ben David, dirigente do partido israelita Gan Eden, cujo nome significa «Jardim do Éden».

A utilização de referências bíblicas na política israelita e a apresentação de propostas como a criação de um Ministério da Paz e da Reconciliação justificam que os cristãos procurem conhecer o programa, as posições e os objetivos deste movimento. Merece igualmente investigação a eventual ligação a setores do evangelismo americano e a correntes do sionismo político, sem presumir que essa relação está demonstrada apenas pela afinidade religiosa.

Não afirmo que este dirigente venha necessariamente a suceder a Benjamin Netanyahu ou a tornar-se primeiro-ministro de Israel. Essa é uma previsão que não pode ser apresentada como facto. Mas considero importante que os cristãos conheçam os movimentos políticos que associam as suas propostas a referências religiosas e avaliem criticamente as consequências do que defendem.

O nome de um partido, a invocação das Escrituras ou a utilização da palavra «paz» não provam, por si só, intenções ocultas. O que importa é analisar as propostas concretas, a conceção de Estado, o lugar atribuído à religião e a forma como são encarados os direitos daqueles que não partilham a mesma visão.

A advertência de Cristo aplica-se também aqui. Não devemos aceitar cegamente um dirigente apenas porque utiliza uma linguagem religiosa familiar ou apresenta os seus objetivos como parte de um desígnio divino. A fé exige discernimento, não submissão automática a projetos políticos.

Os cristãos precisam de despertar

A história ensina-nos que as sociedades podem sofrer transformações profundas quando ignoram os movimentos que procuram alterar a sua organização política, religiosa e cultural. Ensina-nos igualmente que a intolerância e a perseguição não pertencem exclusivamente a uma religião ou civilização.

Por isso, o dever dos cristãos não é alimentar o ódio contra outros povos, mas conhecer a história, reconhecer as ameaças reais à liberdade religiosa e recusar a instrumentalização da sua fé por qualquer poder político.

Não podemos ignorar a perseguição de comunidades cristãs, a violência do extremismo religioso ou as consequências da imposição de uma doutrina através do poder do Estado. Mas também não devemos transformar receios legítimos em certezas sem provas.

A defesa dos valores europeus exige firmeza na aplicação da lei, clareza quanto aos princípios constitucionais e coragem para enfrentar o extremismo. Exige também que não confundamos uma religião inteira com as correntes políticas que procuram falar em seu nome.

Jesus não pediu aos seus discípulos que acreditassem em todos os que falassem em seu nome. Advertiu-os contra o engano.

«Acautelai-vos, que ninguém vos engane.»

Esta advertência continua atual. E a pergunta que cada cristão deve fazer perante os acontecimentos do nosso tempo é simples: estamos a avaliar os dirigentes e os movimentos pelas suas palavras, ou estamos verdadeiramente a examinar os seus atos, os seus objetivos e os frutos das suas ações?