Uma proposta para um Intermarium 2.0
Da Three Seas Initiative a uma nova arquitectura europeia de segurança
Há ideias geopolíticas que desaparecem durante décadas, mas que voltam a encontrar espaço quando as circunstâncias históricas tornam novamente visíveis os problemas que lhes deram origem. Uma dessas ideias é a de uma comunidade entre os mares. Entre o Báltico, o Adriático e o Mar Negro existe uma região que, durante séculos, esteve situada entre grandes centros de poder europeu e sujeita à pressão de impérios e Estados muito maiores. A questão nunca foi apenas territorial. Foi uma questão de segurança, autonomia, conectividade e capacidade de decisão.
Em 1658, o Tratado de Hadiach procurou transformar a República das Duas Nações numa República das Três Nações, acrescentando à Coroa da Polónia e ao Grão-Ducado da Lituânia um Grão-Ducado da Ruténia. O projecto foi apoiado pelo rei João II Casimiro Vasa e teve em Yurii Nemyrych o seu principal arquitecto intelectual. A experiência fracassou enquanto projecto político plenamente realizado, mas deixou formulada uma ideia importante: os povos desta região poderiam aumentar a sua segurança e autonomia através de uma estrutura política comum.
Mais de dois séculos depois, Józef Piłsudski recuperaria uma lógica geopolítica semelhante através do conceito de Intermarium - Międzymorze, uma possível comunidade ou federação dos Estados situados entre o Báltico e o Mar Negro. Também esse projecto não se concretizou. Mas a geografia permaneceu. E hoje existe algo que Piłsudski não possuía: uma infraestrutura regional que começa efectivamente a ligar esses espaços.
Essa infraestrutura chama-se Three Seas Initiative.
E é precisamente a partir dela que podemos começar a imaginar uma nova etapa: Intermarium 2.0.
A proposta não é criar do zero uma organização chamada Intermarium. A região já possui uma estrutura de cooperação. A Three Seas Initiative - Iniciativa dos Três Mares, criada pela Polónia e pela Croácia em 2015, é actualmente uma plataforma informal que reúne 13 Estados-membros da União Europeia situados entre o Báltico, o Adriático e o Mar Negro. Ucrânia, Moldávia, Albânia e Montenegro participam como Estados associados. A sua missão original foi sobretudo económica: desenvolver transportes, energia, infra-estruturas digitais, conectividade Norte-Sul, investimento e desenvolvimento regional. A iniciativa possui também instrumentos financeiros próprios e, em 2026, avançou para um novo mecanismo destinado a mobilizar pelo menos dois mil milhões de euros para infra-estruturas.
Mas alguma coisa está a mudar. Na Declaração de Dubrovnik de 2026, os próprios participantes da Three Seas incluíram entre as suas prioridades a mobilidade militar, as infra-estruturas de uso dual, a ciber-resiliência, a inteligência artificial, a indústria espacial, os semicondutores e as infra-estruturas digitais seguras. O documento reconhece também a importância estratégica dos corredores de transporte, energia e logística da região. Isto é uma mudança de enorme importância, porque significa que a própria Three Seas começa a reconhecer aquilo que a realidade estratégica europeia tornou evidente: conectividade e segurança são duas dimensões da mesma infraestrutura.
É aqui que surge a proposta deste ensaio. A Three Seas Initiative pode constituir a base material de uma arquitectura regional de segurança e resiliência que poderíamos conceptualizar como um Intermarium 2.0. Não seria uma reconstrução da Commonwealth, não seria uma nova NATO, não seria uma organização anti-russa e não seria uma alternativa à União Europeia. Seria uma camada regional complementar às estruturas existentes. A União Europeia continuaria a assegurar a integração económica e política; a NATO continuaria a assegurar a defesa colectiva; a Three Seas continuaria a desenvolver conectividade, energia, digitalização e investimento; e o Intermarium 2.0 acrescentaria uma dimensão que ligaria todas estas áreas: segurança e resiliência regional.
Talvez a transformação mais importante possa ser resumida numa frase: temos de deixar de pensar apenas em corredores económicos e começar a pensar em corredores estratégicos. Uma ferrovia é uma infraestrutura económica, mas também pode transportar forças, combustível e equipamento. Uma estrada é uma infraestrutura comercial, mas também pode constituir uma via de mobilidade militar. Um porto é uma infraestrutura logística, mas também pode ser uma infraestrutura energética e estratégica. Uma rede eléctrica é uma infraestrutura económica, mas a sua redundância pode determinar a capacidade de resistência de uma região. Uma rede digital é uma infraestrutura de comunicações, mas também pode sustentar sistemas financeiros, serviços públicos e operações de segurança.
É por isso que projectos como a Via Carpatia, Rail Baltica e Rail2Sea devem ser analisados não apenas pelo número de mercadorias que podem transportar, mas também pela capacidade que oferecem para aumentar a mobilidade, a redundância e a resiliência estratégica da região. O objectivo não seria militarizar a economia. Seria reconhecer uma realidade: a infraestrutura que torna uma região economicamente forte pode também torná-la estrategicamente mais resistente.
Mas é precisamente aqui que entra um princípio que deveria estar no centro de qualquer Intermarium 2.0: a redundância estratégica distribuída.
Não basta integrar os Estados. Não basta construir infra-estruturas. Não basta desenvolver uma indústria de defesa regional. É necessário evitar criar pontos únicos de falha. Imagine-se uma região em que toda uma determinada capacidade militar ou tecnológica está concentrada num único país: uma capacidade naval, a produção de munições, electrónica, drones, manutenção, combustível ou determinado tipo de defesa aérea. Se essa capacidade estiver concentrada num único local, esse local transforma-se inevitavelmente num alvo estratégico. A destruição de um único nó pode afectar toda a rede.
O princípio deveria ser exactamente o contrário: especialização tecnológica, mas distribuição de capacidades. Um país pode possuir um centro de excelência; outro pode possuir um segundo centro; mas o conhecimento, a produção, os componentes, a manutenção, os stocks e a capacidade operacional crítica devem estar distribuídos por vários Estados. Não se trata de fazer todos produzirem exactamente a mesma coisa, porque isso seria economicamente irracional. Trata-se de identificar as capacidades críticas e garantir que possuem alternativas.
Uma região pode especializar conhecimento sem concentrar capacidade. Pode existir um centro de excelência em inteligência artificial num país, mas outros países devem possuir capacidade para utilizar, adaptar e produzir as tecnologias resultantes. Pode existir um grande centro de investigação naval, mas a manutenção, os componentes, os sistemas electrónicos e a produção associada devem existir em vários pontos. Pode existir uma fábrica altamente especializada, mas a cadeia de fornecedores não deve desaparecer se essa fábrica deixar de funcionar. Pode existir um grande porto, mas devem existir outros portos capazes de absorver parte da sua função.
É uma arquitectura baseada em especialização tecnológica, interoperabilidade, redundância e distribuição.
A própria evolução da política industrial da NATO aponta na mesma direcção. A estratégia de cooperação NATO-indústria aprovada em 2026 fala explicitamente na necessidade de redundância e diversificação das cadeias de abastecimento críticas, capacidade de produção escalável, reservas estratégicas e modelos de produção sustentada, além de defender o co-desenvolvimento, a co-produção e a co-sustentação entre aliados. O princípio é importante: uma região segura não deve simplesmente possuir mais capacidade; deve possuir capacidade distribuída, de forma a que a perda de uma instalação não signifique a perda de todo o sistema.
Isto tem consequências directas para a defesa. Um Intermarium 2.0 não precisaria de criar um exército próprio. O objectivo seria criar uma rede regional capaz de integrar capacidades nacionais: defesa aérea, vigilância, drones, guerra electrónica, ciberdefesa, inteligência, logística, mobilidade militar, segurança marítima, protecção de infra-estruturas, produção, manutenção e reservas estratégicas. Cada país continuaria a possuir as suas próprias forças armadas, mas determinados sistemas poderiam ser interoperáveis, determinadas reservas poderiam ser coordenadas, determinados corredores poderiam ser preparados para mobilidade militar e determinadas infra-estruturas poderiam ser planeadas desde o início para possuir funções civis e militares.
A consequência mais interessante talvez esteja na dissuasão. A dissuasão não depende apenas da capacidade de destruir um adversário. Depende também da capacidade de sobreviver ao primeiro golpe. Se uma região possui apenas alguns centros críticos, esses centros tornam-se alvos prioritários. Se possui múltiplos centros, múltiplas rotas e múltiplas cadeias de produção, o efeito de um ataque é menor. Um potencial agressor deixa então de poder assumir que destruir A equivale a destruir toda a capacidade regional. Passa a enfrentar uma situação em que destruir A pode simplesmente transferir a carga para B, C e D. É esta a lógica da redundância estratégica distribuída.
E isso tem uma consequência directa para a dissuasão: quanto menos eficaz for um ataque contra a infraestrutura regional, menor será o benefício estratégico esperado desse ataque. Uma região que consegue continuar a funcionar depois de perder temporariamente uma infraestrutura crítica é muito mais difícil de paralisar do que uma região em que cada capacidade está concentrada num único ponto.
A indústria de defesa deveria ser, por isso, um dos grandes pilares do Intermarium 2.0, mas não através da criação de fábricas isoladas. Deveria existir uma verdadeira rede industrial de defesa, com investigação num país, desenvolvimento noutro, componentes produzidos em vários, integração noutro, manutenção distribuída, stocks distribuídos e capacidade de produção de emergência também distribuída. A NATO está já a procurar aumentar a cooperação industrial, a produção transfronteiriça e a capacidade de expansão rápida das cadeias de produção.
Esta dimensão tem ainda uma vantagem económica. Drones, robótica, inteligência artificial, sensores, materiais avançados, satélites, telecomunicações, sistemas autónomos, microelectrónica e cibersegurança são simultaneamente tecnologias de defesa e tecnologias civis. Uma política regional de investigação e produção poderia criar um verdadeiro ecossistema tecnológico, capaz de gerar emprego qualificado, investigação, exportações, novas empresas e propriedade intelectual. A defesa deixaria, assim, de ser vista exclusivamente como despesa e passaria a ser também, em determinadas áreas, uma política industrial e tecnológica.
O mesmo princípio deveria aplicar-se à energia. Uma região estrategicamente segura não pode depender de uma única fonte, de um único fornecedor ou de uma única rota. O objectivo deveria ser criar interligações eléctricas, armazenamento, múltiplas rotas de gás, LNG, energias renováveis, capacidade nuclear onde aplicável, hidrogénio e reservas. A própria agenda da Three Seas já trata a segurança energética como uma das suas prioridades e desenvolve corredores energéticos Norte-Sul. O princípio é simples: não procurar apenas energia suficiente, mas energia suficientemente distribuída para que uma falha localizada não se transforme numa crise regional.
O mesmo raciocínio vale para as infra-estruturas. Uma auto-estrada deve servir a economia, mas pode ser construída considerando mobilidade militar. Uma ferrovia deve transportar passageiros e mercadorias, mas pode possuir capacidade de carga adequada a situações de emergência. Um aeroporto deve servir a aviação civil, mas pode ser preparado para operações logísticas. Um porto deve servir o comércio, mas deve possuir capacidade de resposta a crises. Uma rede digital deve servir a economia, mas deve possuir redundância e segurança suficientes para funcionar sob ataque. É isto que significa infra-estrutura de uso dual. E a própria Three Seas já colocou explicitamente a mobilidade militar e as infra-estruturas de uso dual na sua agenda.
É impossível pensar num Intermarium 2.0 ignorando a Ucrânia. A Ucrânia já é Estado associado da Three Seas Initiative, mas a sua importância vai muito além da geografia. A guerra transformou-a num dos maiores laboratórios militares e tecnológicos do mundo contemporâneo. Drones, guerra electrónica, cibersegurança, defesa aérea, sistemas autónomos, produção militar, inteligência, logística e adaptação tecnológica são áreas onde a experiência acumulada poderá constituir uma vantagem para toda a arquitectura de segurança europeia.
Por isso, a Ucrânia não deveria ser vista simplesmente como o espaço que separa a União Europeia da Rússia. Poderia tornar-se um dos centros da futura segurança europeia. A sua posição permite ligar a Europa Central ao Mar Negro e, através deste, a outras regiões estratégicas. A reconstrução ucraniana poderá, por isso, ser muito mais do que uma operação de recuperação nacional. Poderá transformar-se numa grande operação de integração económica regional, envolvendo estradas, ferrovias, energia, telecomunicações, indústria, portos, agricultura, tecnologia e logística. Se essa reconstrução for integrada na arquitectura dos Três Mares, a Ucrânia poderá tornar-se um dos grandes nós económicos e estratégicos da Europa Central e Oriental.
Existe aqui uma oportunidade económica de enorme dimensão. Uma região integrada possui maior capacidade para atrair investimento, desenvolver tecnologia, criar cadeias de abastecimento, financiar grandes projectos, reduzir custos, desenvolver mercados e competir globalmente. A Three Seas já representa uma região económica de grande dimensão e, segundo a documentação da iniciativa, reúne mais de 120 milhões de habitantes e um PIB combinado superior a 3,5 biliões de euros.
A escala permite pensar numa espécie de mercado regional de segurança e tecnologia. Uma empresa polaca pode desenvolver um sistema, uma empresa checa produzir componentes, uma empresa romena fabricar outro elemento, uma empresa lituana desenvolver software e uma empresa ucraniana acrescentar experiência operacional. O resultado não seria uma soma de empresas nacionais isoladas, mas uma cadeia industrial regional. E, mais uma vez, o princípio seria o mesmo: o conhecimento pode ser especializado; a capacidade deve ser distribuída.
Esta lógica não exige que todos os países participem em tudo. Pelo contrário, poderia existir uma geometria variável. Alguns poderiam aprofundar a cooperação em defesa aérea; outros em cibersegurança; outros em energia, drones, indústria naval ou logística. O importante seria garantir interoperabilidade e redundância nas capacidades essenciais. Isso permitiria avançar mais rapidamente onde existe vontade política sem obrigar todos os Estados a adoptar exactamente as mesmas políticas.
A relação com a NATO e a União Europeia seria decisiva. Um Intermarium 2.0 não deveria substituir nenhuma das duas. A União Europeia continuaria a fornecer integração económica, jurídica e política; a NATO continuaria a fornecer defesa colectiva e dissuasão transatlântica; a Three Seas continuaria a desenvolver conectividade, energia, digitalização e investimento; e o Intermarium 2.0 poderia fornecer uma camada regional de resiliência, capacidades distribuídas, mobilidade, indústria estratégica e cooperação de segurança. A própria NATO está a defender uma Europa mais capaz dentro da Aliança, reforçando simultaneamente produção, interoperabilidade e responsabilidade europeia. Na cimeira de Ancara de 2026, os aliados reafirmaram o artigo 5.º e a necessidade de uma “stronger Europe in a stronger NATO”.
O conceito fundamental seria, portanto, o de interdependência resiliente. Os Estados devem depender uns dos outros o suficiente para terem interesse na estabilidade colectiva, mas não tanto que a perda de um único parceiro provoque o colapso dos restantes. Se uma fábrica deixar de produzir, outra deve poder assumir parte da produção. Se uma ferrovia for destruída, outra deve poder substituí-la. Se um porto ficar indisponível, outros devem absorver parte do tráfego. Se uma rede energética falhar, devem existir alternativas. Se um centro de dados for destruído, os serviços devem continuar disponíveis noutros locais. Se uma fábrica de defesa for atingida, a produção não deve desaparecer.
É esta arquitectura que transforma uma região em sistema.
E é também aqui que o Intermarium 2.0 pode produzir riqueza. Construir uma ferrovia resiliente cria comércio, mas também cria mobilidade estratégica. Construir uma rede eléctrica integrada cria eficiência, mas também cria segurança energética. Construir uma indústria de drones cria capacidade militar, mas também cria exportações e tecnologia. Criar centros de investigação cria inovação, mas também cria capacidade de defesa. Criar portos modernos aumenta o comércio, mas também melhora a logística estratégica. O mesmo investimento pode produzir crescimento económico em tempo de paz e capacidade de resistência em tempo de crise.
A geografia da segurança europeia está, aliás, a adquirir novas dimensões. A cooperação entre os Estados do flanco oriental, os países nórdicos e os aliados da região do Báltico aproxima cada vez mais os espaços que vão do Mar Negro ao Báltico e ao Norte da Europa. Não é necessário transformar estas estruturas numa única organização. Pode ser mais eficaz criar redes sobrepostas: Three Seas, B9, cooperação nórdica, NATO, União Europeia e Ucrânia, cada uma com a sua função, mas com pontos de ligação.
É por isso que o Intermarium 2.0 deveria ser entendido como uma rede de redes, e não como um novo bloco. O Intermarium histórico foi pensado em grande medida como uma entidade política ou federativa. O Intermarium do século XXI poderia ser completamente diferente. Não precisaria de território político comum, de uma capital ou de um exército único. Poderia ser uma arquitectura composta por infra-estruturas, indústrias, forças armadas, centros tecnológicos, sistemas energéticos, cadeias logísticas, instituições financeiras e mecanismos de cooperação. O poder estaria precisamente na ligação entre elas.
No fundo, o conceito assenta em três princípios: conectividade, resiliência e dissuasão. Conectividade para ligar o Báltico, o Adriático e o Mar Negro através de transportes, energia e redes digitais. Resiliência para garantir que essas redes possuem redundância e não dependem de pontos únicos de falha. E dissuasão para transformar essa resiliência em capacidade de defesa e numa maior dificuldade para qualquer actor externo exercer coerção sobre a região. Mas existe um quarto princípio transversal: partilha! Partilhar tecnologia, conhecimento, produção, informação, infra-estruturas e capacidade.
Porque uma região segura não é aquela em que cada país possui uma pequena fortaleza isolada. É aquela em que as capacidades estão ligadas entre si e nenhuma delas constitui o único suporte do sistema.
É curioso regressar ao ponto de partida. Em 1658, a proposta de Hadiach procurava criar uma República das Três Nações. Séculos depois, Piłsudski procurou criar uma comunidade entre os mares. Nenhum desses projectos sobreviveu como instituição. Mas a questão geopolítica continuou. Hoje, porém, existe uma diferença fundamental: a região possui instituições europeias comuns, uma aliança militar transatlântica, mercados integrados, tecnologia, capital, infra-estruturas e uma plataforma regional que já se estende precisamente entre os três mares.
A Three Seas Initiative pode, portanto, representar a primeira camada material de algo maior. Não é necessário reinventar a região. É necessário ligar aquilo que já existe.
Um Intermarium 2.0 poderia começar por objectivos relativamente concretos: criar uma rede regional de infra-estruturas de uso dual; desenvolver corredores Norte-Sul com capacidade de mobilidade militar; criar redundância nas redes energéticas e digitais; distribuir capacidades industriais de defesa por vários países; criar cadeias de produção comuns para tecnologias estratégicas; desenvolver reservas e stocks distribuídos; criar mecanismos de cooperação em cibersegurança e protecção de infra-estruturas; desenvolver sistemas interoperáveis de vigilância, defesa aérea e resposta a crises; integrar a experiência tecnológica e militar da Ucrânia; utilizar a reconstrução da Ucrânia para aprofundar a integração económica regional; criar instrumentos financeiros para projectos simultaneamente económicos e estratégicos; e, sobretudo, garantir que nenhuma capacidade crítica dependa de um único Estado, empresa, rota ou instalação.
Se tivéssemos de resumir toda a proposta numa única frase, seria esta:
Especialização tecnológica. Partilha de capacidades. Redundância estratégica distribuída.
Essa poderia ser a verdadeira inovação do Intermarium 2.0. Não uma região em que cada país produz uma coisa, mas uma região em que vários países conseguem produzir, manter, substituir e desenvolver as capacidades essenciais uns dos outros. Não uma cadeia linear, mas uma rede. Não uma fortaleza, mas um sistema distribuído. Não uma aliança criada contra alguém, mas uma comunidade construída para ser suficientemente resiliente para que a coerção externa se torne muito mais difícil.
A história do Intermarium começou como uma resposta a uma geografia. Hoje podemos responder a essa mesma geografia com instrumentos completamente diferentes. A União Europeia fornece escala. A NATO fornece defesa colectiva. A Three Seas fornece conectividade. A Ucrânia fornece experiência estratégica e tecnológica. E os Estados da Europa Central e Oriental possuem uma oportunidade que não existia no passado: construir colectivamente a sua própria resiliência.
Não se trata de criar uma nova divisão da Europa. Trata-se de tornar a Europa mais forte. Não se trata de substituir a NATO. Trata-se de aumentar a capacidade europeia dentro da arquitectura euro-atlântica. Não se trata de transformar a Three Seas numa aliança militar. Trata-se de reconhecer que as infra-estruturas que a Three Seas está a construir já possuem uma dimensão estratégica.
E não se trata de concentrar capacidades.
Trata-se exactamente do contrário: distribuí-las.
Porque uma região em que uma única fábrica, um único porto, uma única ferrovia, uma única rede energética ou um único centro tecnológico pode ser destruído e provocar um efeito sistémico é uma região vulnerável. Uma região em que existem alternativas, redundâncias e capacidade distribuída é muito mais difícil de paralisar.
Essa é a lógica do Intermarium 2.0.
Do Báltico ao Adriático. Do Adriático ao Mar Negro. Da conectividade à resiliência. Da resiliência à dissuasão. Da especialização à capacidade partilhada. Da dependência à interdependência resiliente.
Quatro séculos depois de Hadiach, a questão já não é criar uma República das Três Nações. A questão é outra:
Será possível transformar os três mares numa comunidade estratégica capaz de se defender, prosperar e resistir em conjunto?














