sábado, 10 de outubro de 2026

«Acautelai-vos, que ninguém vos engane.»

A advertência de Cristo, a expansão islâmica e os desafios que a Europa não deve ignorar

Estas foram as palavras de Jesus Cristo dirigidas aos seus discípulos quando lhes falou dos acontecimentos que haveriam de marcar o futuro. Uma advertência que atravessou os séculos e que continua a exigir dos cristãos discernimento, vigilância e capacidade para distinguir a verdade do engano, sobretudo quando este se apresenta revestido de linguagem religiosa.

Porque nem todos os que falam de paz procuram necessariamente a paz, nem todos os que invocam o nome de Deus estão ao serviço daquilo que Cristo ensinou. A história demonstra que a religião pode ser utilizada como instrumento de poder, mobilização política e legitimação de projetos que procuram subordinar a sociedade a uma determinada visão religiosa.

Hoje, num mundo marcado por conflitos, rivalidades geopolíticas e disputas pela influência religiosa, os cristãos precisam de olhar para os acontecimentos com lucidez. Não basta ouvir discursos sobre paz, reconciliação ou profecias bíblicas. É necessário examinar quem os profere, quais são os seus objetivos e que consequências poderão ter para a liberdade religiosa, para as instituições e para as gerações futuras.

A história que muitos cristãos desconhecem

Antes da expansão islâmica, o Egipto, a Síria, a Palestina e vastas regiões do Norte de África possuíam comunidades cristãs antigas e influentes. O Egipto era um dos grandes centros do cristianismo, a Síria acolhia importantes comunidades e tradições teológicas, e o Norte de África tinha produzido figuras fundamentais da história da Igreja, como Santo Agostinho de Hipona.

A partir do século VII, os exércitos dos primeiros califados conquistaram grande parte destes territórios. O domínio político muçulmano alterou progressivamente a composição religiosa dessas sociedades. Contudo, a islamização foi um processo prolongado, com ritmos diferentes de região para região, e não uma conversão imediata de todas as populações conquistadas.

As conquistas militares foram o início de uma transformação muito mais ampla. Ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs enfrentaram impostos específicos, desigualdades jurídicas, restrições religiosas e episódios de perseguição. Nalguns contextos ocorreram conversões forçadas; noutros, a transformação resultou de pressões sociais, incentivos económicos, assimilação cultural, decisões individuais e mudanças demográficas.

A história não deve ser simplificada. Nem todos os governantes muçulmanos trataram os cristãos da mesma maneira, e muitas comunidades cristãs sobreviveram durante séculos sob domínio islâmico. Mas seria igualmente errado apagar as conquistas militares, as perseguições e as restrições que acompanharam determinados períodos dessa expansão.

Os cristãos europeus precisam de conhecer esta história. Não para alimentar o ódio contra os muçulmanos de hoje, mas para compreender que sociedades profundamente cristãs podem sofrer transformações religiosas e culturais duradouras, sobretudo quando se alteram as estruturas de poder, as condições de liberdade e as relações entre comunidades.

A César o que é de César, a Deus o que é de Deus

Existe uma diferença fundamental entre a mensagem de Jesus Cristo e os modelos políticos que procuram subordinar a totalidade da vida civil a uma autoridade religiosa.

Quando Jesus declarou «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mateus 22:21), estabeleceu uma distinção que continua a ser essencial para a reflexão sobre a relação entre a autoridade civil e a consciência religiosa.

Esta passagem não instituiu, por si só, a separação moderna entre Igreja e Estado. A própria história cristã conheceu períodos em que o poder político e o poder religioso estiveram profundamente ligados, incluindo episódios de intolerância e perseguição. Mas as palavras de Cristo permitem questionar a pretensão de qualquer autoridade temporal de controlar integralmente a consciência humana e a sua relação com Deus.

O Islão e o cristianismo são religiões distintas, com conceções diferentes de Jesus, da revelação, da autoridade religiosa e da organização da sociedade. Embora partilhem algumas referências da tradição abraâmica, não são equivalentes na sua teologia nem na forma como diferentes correntes interpretam a relação entre religião e poder.

Em determinados sistemas islâmicos, a lei religiosa ocupa um lugar central na legislação e na organização do Estado. Noutros países de maioria muçulmana, a relação entre as instituições civis e religiosas assume formas diferentes. É precisamente essa diversidade que exige uma análise rigorosa.

O problema surge quando uma interpretação religiosa é transformada em instrumento de imposição política, quando a liberdade de consciência é restringida ou quando os direitos dos cristãos e de outras minorias ficam subordinados à pertença religiosa.

Uma sociedade livre tem de proteger o direito de cada pessoa a professar uma religião, a mudar de religião ou a não professar nenhuma. E tem de garantir que a lei civil protege todos os cidadãos, independentemente da sua fé.

Do passado ao presente: o que deve a Europa aprender?

É aqui que o paralelismo histórico se torna relevante.

A expansão dos primeiros califados e a realidade contemporânea europeia não são o mesmo fenómeno. A Europa atual não está a viver uma repetição das conquistas militares do século VII. Mas a história mostra por que razão as sociedades devem estar atentas aos movimentos que procuram transformar a ordem política, jurídica e cultural através de uma ideologia religiosa.

Na Europa de hoje, a questão não é a existência de cidadãos muçulmanos. Milhões de muçulmanos vivem em sociedades europeias, muitos nasceram nelas e participam normalmente na vida económica, social e política. A sua presença não constitui, por si só, uma ameaça aos valores europeus.

A questão é outra: que fazer perante correntes islamistas que defendem a subordinação da lei civil a uma interpretação religiosa, organizações jihadistas que recorrem à violência, movimentos que procuram restringir os direitos das mulheres ou discursos que recusam a igualdade jurídica entre cidadãos de diferentes religiões?

Estes fenómenos devem ser identificados e combatidos através da lei, da prevenção da radicalização, da defesa da liberdade de expressão e da proteção das instituições democráticas. Não se deve esperar que a violência ou a intimidação se tornem generalizadas para reconhecer um problema.

A Europa tem valores que merecem ser defendidos: a liberdade de consciência, a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão, a proteção das minorias e a separação entre a autoridade civil e a imposição religiosa. Estes princípios não pertencem exclusivamente aos cristãos, mas fazem parte da ordem constitucional de muitas sociedades europeias e foram moldados por uma história complexa, na qual o cristianismo teve uma influência profunda.

A advertência histórica não é que todos os muçulmanos pretendam destruir a Europa. É que nenhuma sociedade deve permitir que movimentos intolerantes, sejam religiosos ou políticos, utilizem as liberdades democráticas para eliminar as liberdades dos outros.

A tolerância não pode significar a aceitação passiva da intolerância. O respeito pela religião de alguém não obriga a aceitar a imposição dessa religião aos restantes cidadãos.

A falsa paz e a instrumentalização da fé

A palavra «paz» tem uma força moral evidente. Mas o simples facto de um partido, um dirigente ou uma organização utilizar essa palavra não demonstra que as suas propostas promovam uma paz duradoura.

Os cristãos devem examinar os objetivos, os meios e as consequências dos projetos que lhes são apresentados como parte de um desígnio divino. A fé não deve ser utilizada para retirar aos fiéis a capacidade de questionar dirigentes políticos, nem para transformar uma opção partidária numa obrigação espiritual.

O mesmo cuidado deve aplicar-se aos movimentos que recorrem a interpretações proféticas da Bíblia para justificar determinadas agendas no Médio Oriente. Defender Israel ou apoiar o povo judeu não significa, por si só, participar numa manipulação religiosa. O problema surge quando se pretende apresentar uma política concreta como vontade incontestável de Deus, tornando qualquer crítica equivalente a uma falta de fé.

Também é necessário investigar o apoio financeiro e político que Estados possam conceder a organizações extremistas. Quando existirem provas de financiamento, apoio logístico ou proteção política de movimentos violentos, esses factos devem ser expostos. Mas as responsabilidades devem ser atribuídas com base em evidências, e não em suspeitas generalizadas.

Aos cristãos cabe uma responsabilidade particular: não permitir que a sua fé seja instrumentalizada por interesses políticos, sejam eles provenientes do Médio Oriente, da Europa ou dos Estados Unidos.

Depois de Netanyahu: Yeshua Israel Ben David e o Gan Eden

É neste contexto que importa prestar atenção a Yeshua Israel Ben David, dirigente do partido israelita Gan Eden, cujo nome significa «Jardim do Éden».

A utilização de referências bíblicas na política israelita e a apresentação de propostas como a criação de um Ministério da Paz e da Reconciliação justificam que os cristãos procurem conhecer o programa, as posições e os objetivos deste movimento. Merece igualmente investigação a eventual ligação a setores do evangelismo americano e a correntes do sionismo político, sem presumir que essa relação está demonstrada apenas pela afinidade religiosa.

Não afirmo que este dirigente venha necessariamente a suceder a Benjamin Netanyahu ou a tornar-se primeiro-ministro de Israel. Essa é uma previsão que não pode ser apresentada como facto. Mas considero importante que os cristãos conheçam os movimentos políticos que associam as suas propostas a referências religiosas e avaliem criticamente as consequências do que defendem.

O nome de um partido, a invocação das Escrituras ou a utilização da palavra «paz» não provam, por si só, intenções ocultas. O que importa é analisar as propostas concretas, a conceção de Estado, o lugar atribuído à religião e a forma como são encarados os direitos daqueles que não partilham a mesma visão.

A advertência de Cristo aplica-se também aqui. Não devemos aceitar cegamente um dirigente apenas porque utiliza uma linguagem religiosa familiar ou apresenta os seus objetivos como parte de um desígnio divino. A fé exige discernimento, não submissão automática a projetos políticos.

Os cristãos precisam de despertar

A história ensina-nos que as sociedades podem sofrer transformações profundas quando ignoram os movimentos que procuram alterar a sua organização política, religiosa e cultural. Ensina-nos igualmente que a intolerância e a perseguição não pertencem exclusivamente a uma religião ou civilização.

Por isso, o dever dos cristãos não é alimentar o ódio contra outros povos, mas conhecer a história, reconhecer as ameaças reais à liberdade religiosa e recusar a instrumentalização da sua fé por qualquer poder político.

Não podemos ignorar a perseguição de comunidades cristãs, a violência do extremismo religioso ou as consequências da imposição de uma doutrina através do poder do Estado. Mas também não devemos transformar receios legítimos em certezas sem provas.

A defesa dos valores europeus exige firmeza na aplicação da lei, clareza quanto aos princípios constitucionais e coragem para enfrentar o extremismo. Exige também que não confundamos uma religião inteira com as correntes políticas que procuram falar em seu nome.

Jesus não pediu aos seus discípulos que acreditassem em todos os que falassem em seu nome. Advertiu-os contra o engano.

«Acautelai-vos, que ninguém vos engane.»

Esta advertência continua atual. E a pergunta que cada cristão deve fazer perante os acontecimentos do nosso tempo é simples: estamos a avaliar os dirigentes e os movimentos pelas suas palavras, ou estamos verdadeiramente a examinar os seus atos, os seus objetivos e os frutos das suas ações?


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

ENTRE OS MARES

 Uma proposta para um Intermarium 2.0

Da Three Seas Initiative a uma nova arquitectura europeia de segurança

Há ideias geopolíticas que desaparecem durante décadas, mas que voltam a encontrar espaço quando as circunstâncias históricas tornam novamente visíveis os problemas que lhes deram origem. Uma dessas ideias é a de uma comunidade entre os mares. Entre o Báltico, o Adriático e o Mar Negro existe uma região que, durante séculos, esteve situada entre grandes centros de poder europeu e sujeita à pressão de impérios e Estados muito maiores. A questão nunca foi apenas territorial. Foi uma questão de segurança, autonomia, conectividade e capacidade de decisão. 



Em 1658, o Tratado de Hadiach procurou transformar a República das Duas Nações numa República das Três Nações, acrescentando à Coroa da Polónia e ao Grão-Ducado da Lituânia um Grão-Ducado da Ruténia. O projecto foi apoiado pelo rei João II Casimiro Vasa e teve em Yurii Nemyrych o seu principal arquitecto intelectual. A experiência fracassou enquanto projecto político plenamente realizado, mas deixou formulada uma ideia importante: os povos desta região poderiam aumentar a sua segurança e autonomia através de uma estrutura política comum.



Mais de dois séculos depois, Józef Piłsudski recuperaria uma lógica geopolítica semelhante através do conceito de Intermarium - Międzymorze, uma possível comunidade ou federação dos Estados situados entre o Báltico e o Mar Negro. Também esse projecto não se concretizou. Mas a geografia permaneceu. E hoje existe algo que Piłsudski não possuía: uma infraestrutura regional que começa efectivamente a ligar esses espaços.

Essa infraestrutura chama-se Three Seas Initiative.

E é precisamente a partir dela que podemos começar a imaginar uma nova etapa: Intermarium 2.0.

A proposta não é criar do zero uma organização chamada Intermarium. A região já possui uma estrutura de cooperação. A Three Seas Initiative - Iniciativa dos Três Mares, criada pela Polónia e pela Croácia em 2015, é actualmente uma plataforma informal que reúne 13 Estados-membros da União Europeia situados entre o Báltico, o Adriático e o Mar Negro. Ucrânia, Moldávia, Albânia e Montenegro participam como Estados associados. A sua missão original foi sobretudo económica: desenvolver transportes, energia, infra-estruturas digitais, conectividade Norte-Sul, investimento e desenvolvimento regional. A iniciativa possui também instrumentos financeiros próprios e, em 2026, avançou para um novo mecanismo destinado a mobilizar pelo menos dois mil milhões de euros para infra-estruturas.



Mas alguma coisa está a mudar. Na Declaração de Dubrovnik de 2026, os próprios participantes da Three Seas incluíram entre as suas prioridades a mobilidade militar, as infra-estruturas de uso dual, a ciber-resiliência, a inteligência artificial, a indústria espacial, os semicondutores e as infra-estruturas digitais seguras. O documento reconhece também a importância estratégica dos corredores de transporte, energia e logística da região. Isto é uma mudança de enorme importância, porque significa que a própria Three Seas começa a reconhecer aquilo que a realidade estratégica europeia tornou evidente: conectividade e segurança são duas dimensões da mesma infraestrutura.

É aqui que surge a proposta deste ensaio. A Three Seas Initiative pode constituir a base material de uma arquitectura regional de segurança e resiliência que poderíamos conceptualizar como um Intermarium 2.0. Não seria uma reconstrução da Commonwealth, não seria uma nova NATO, não seria uma organização anti-russa e não seria uma alternativa à União Europeia. Seria uma camada regional complementar às estruturas existentes. A União Europeia continuaria a assegurar a integração económica e política; a NATO continuaria a assegurar a defesa colectiva; a Three Seas continuaria a desenvolver conectividade, energia, digitalização e investimento; e o Intermarium 2.0 acrescentaria uma dimensão que ligaria todas estas áreas: segurança e resiliência regional.

Talvez a transformação mais importante possa ser resumida numa frase: temos de deixar de pensar apenas em corredores económicos e começar a pensar em corredores estratégicos. Uma ferrovia é uma infraestrutura económica, mas também pode transportar forças, combustível e equipamento. Uma estrada é uma infraestrutura comercial, mas também pode constituir uma via de mobilidade militar. Um porto é uma infraestrutura logística, mas também pode ser uma infraestrutura energética e estratégica. Uma rede eléctrica é uma infraestrutura económica, mas a sua redundância pode determinar a capacidade de resistência de uma região. Uma rede digital é uma infraestrutura de comunicações, mas também pode sustentar sistemas financeiros, serviços públicos e operações de segurança.

É por isso que projectos como a Via Carpatia, Rail Baltica e Rail2Sea devem ser analisados não apenas pelo número de mercadorias que podem transportar, mas também pela capacidade que oferecem para aumentar a mobilidade, a redundância e a resiliência estratégica da região. O objectivo não seria militarizar a economia. Seria reconhecer uma realidade: a infraestrutura que torna uma região economicamente forte pode também torná-la estrategicamente mais resistente.



Mas é precisamente aqui que entra um princípio que deveria estar no centro de qualquer Intermarium 2.0: a redundância estratégica distribuída.

Não basta integrar os Estados. Não basta construir infra-estruturas. Não basta desenvolver uma indústria de defesa regional. É necessário evitar criar pontos únicos de falha. Imagine-se uma região em que toda uma determinada capacidade militar ou tecnológica está concentrada num único país: uma capacidade naval, a produção de munições, electrónica, drones, manutenção, combustível ou determinado tipo de defesa aérea. Se essa capacidade estiver concentrada num único local, esse local transforma-se inevitavelmente num alvo estratégico. A destruição de um único nó pode afectar toda a rede.



O princípio deveria ser exactamente o contrário: especialização tecnológica, mas distribuição de capacidades. Um país pode possuir um centro de excelência; outro pode possuir um segundo centro; mas o conhecimento, a produção, os componentes, a manutenção, os stocks e a capacidade operacional crítica devem estar distribuídos por vários Estados. Não se trata de fazer todos produzirem exactamente a mesma coisa, porque isso seria economicamente irracional. Trata-se de identificar as capacidades críticas e garantir que possuem alternativas.

Uma região pode especializar conhecimento sem concentrar capacidade. Pode existir um centro de excelência em inteligência artificial num país, mas outros países devem possuir capacidade para utilizar, adaptar e produzir as tecnologias resultantes. Pode existir um grande centro de investigação naval, mas a manutenção, os componentes, os sistemas electrónicos e a produção associada devem existir em vários pontos. Pode existir uma fábrica altamente especializada, mas a cadeia de fornecedores não deve desaparecer se essa fábrica deixar de funcionar. Pode existir um grande porto, mas devem existir outros portos capazes de absorver parte da sua função.

É uma arquitectura baseada em especialização tecnológica, interoperabilidade, redundância e distribuição.

A própria evolução da política industrial da NATO aponta na mesma direcção. A estratégia de cooperação NATO-indústria aprovada em 2026 fala explicitamente na necessidade de redundância e diversificação das cadeias de abastecimento críticas, capacidade de produção escalável, reservas estratégicas e modelos de produção sustentada, além de defender o co-desenvolvimento, a co-produção e a co-sustentação entre aliados. O princípio é importante: uma região segura não deve simplesmente possuir mais capacidade; deve possuir capacidade distribuída, de forma a que a perda de uma instalação não signifique a perda de todo o sistema.

Isto tem consequências directas para a defesa. Um Intermarium 2.0 não precisaria de criar um exército próprio. O objectivo seria criar uma rede regional capaz de integrar capacidades nacionais: defesa aérea, vigilância, drones, guerra electrónica, ciberdefesa, inteligência, logística, mobilidade militar, segurança marítima, protecção de infra-estruturas, produção, manutenção e reservas estratégicas. Cada país continuaria a possuir as suas próprias forças armadas, mas determinados sistemas poderiam ser interoperáveis, determinadas reservas poderiam ser coordenadas, determinados corredores poderiam ser preparados para mobilidade militar e determinadas infra-estruturas poderiam ser planeadas desde o início para possuir funções civis e militares.

A consequência mais interessante talvez esteja na dissuasão. A dissuasão não depende apenas da capacidade de destruir um adversário. Depende também da capacidade de sobreviver ao primeiro golpe. Se uma região possui apenas alguns centros críticos, esses centros tornam-se alvos prioritários. Se possui múltiplos centros, múltiplas rotas e múltiplas cadeias de produção, o efeito de um ataque é menor. Um potencial agressor deixa então de poder assumir que destruir A equivale a destruir toda a capacidade regional. Passa a enfrentar uma situação em que destruir A pode simplesmente transferir a carga para B, C e D. É esta a lógica da redundância estratégica distribuída.



E isso tem uma consequência directa para a dissuasão: quanto menos eficaz for um ataque contra a infraestrutura regional, menor será o benefício estratégico esperado desse ataque. Uma região que consegue continuar a funcionar depois de perder temporariamente uma infraestrutura crítica é muito mais difícil de paralisar do que uma região em que cada capacidade está concentrada num único ponto.

A indústria de defesa deveria ser, por isso, um dos grandes pilares do Intermarium 2.0, mas não através da criação de fábricas isoladas. Deveria existir uma verdadeira rede industrial de defesa, com investigação num país, desenvolvimento noutro, componentes produzidos em vários, integração noutro, manutenção distribuída, stocks distribuídos e capacidade de produção de emergência também distribuída. A NATO está já a procurar aumentar a cooperação industrial, a produção transfronteiriça e a capacidade de expansão rápida das cadeias de produção.

Esta dimensão tem ainda uma vantagem económica. Drones, robótica, inteligência artificial, sensores, materiais avançados, satélites, telecomunicações, sistemas autónomos, microelectrónica e cibersegurança são simultaneamente tecnologias de defesa e tecnologias civis. Uma política regional de investigação e produção poderia criar um verdadeiro ecossistema tecnológico, capaz de gerar emprego qualificado, investigação, exportações, novas empresas e propriedade intelectual. A defesa deixaria, assim, de ser vista exclusivamente como despesa e passaria a ser também, em determinadas áreas, uma política industrial e tecnológica.

O mesmo princípio deveria aplicar-se à energia. Uma região estrategicamente segura não pode depender de uma única fonte, de um único fornecedor ou de uma única rota. O objectivo deveria ser criar interligações eléctricas, armazenamento, múltiplas rotas de gás, LNG, energias renováveis, capacidade nuclear onde aplicável, hidrogénio e reservas. A própria agenda da Three Seas já trata a segurança energética como uma das suas prioridades e desenvolve corredores energéticos Norte-Sul. O princípio é simples: não procurar apenas energia suficiente, mas energia suficientemente distribuída para que uma falha localizada não se transforme numa crise regional.

O mesmo raciocínio vale para as infra-estruturas. Uma auto-estrada deve servir a economia, mas pode ser construída considerando mobilidade militar. Uma ferrovia deve transportar passageiros e mercadorias, mas pode possuir capacidade de carga adequada a situações de emergência. Um aeroporto deve servir a aviação civil, mas pode ser preparado para operações logísticas. Um porto deve servir o comércio, mas deve possuir capacidade de resposta a crises. Uma rede digital deve servir a economia, mas deve possuir redundância e segurança suficientes para funcionar sob ataque. É isto que significa infra-estrutura de uso dual. E a própria Three Seas já colocou explicitamente a mobilidade militar e as infra-estruturas de uso dual na sua agenda.

É impossível pensar num Intermarium 2.0 ignorando a Ucrânia. A Ucrânia já é Estado associado da Three Seas Initiative, mas a sua importância vai muito além da geografia. A guerra transformou-a num dos maiores laboratórios militares e tecnológicos do mundo contemporâneo. Drones, guerra electrónica, cibersegurança, defesa aérea, sistemas autónomos, produção militar, inteligência, logística e adaptação tecnológica são áreas onde a experiência acumulada poderá constituir uma vantagem para toda a arquitectura de segurança europeia.

Por isso, a Ucrânia não deveria ser vista simplesmente como o espaço que separa a União Europeia da Rússia. Poderia tornar-se um dos centros da futura segurança europeia. A sua posição permite ligar a Europa Central ao Mar Negro e, através deste, a outras regiões estratégicas. A reconstrução ucraniana poderá, por isso, ser muito mais do que uma operação de recuperação nacional. Poderá transformar-se numa grande operação de integração económica regional, envolvendo estradas, ferrovias, energia, telecomunicações, indústria, portos, agricultura, tecnologia e logística. Se essa reconstrução for integrada na arquitectura dos Três Mares, a Ucrânia poderá tornar-se um dos grandes nós económicos e estratégicos da Europa Central e Oriental.

Existe aqui uma oportunidade económica de enorme dimensão. Uma região integrada possui maior capacidade para atrair investimento, desenvolver tecnologia, criar cadeias de abastecimento, financiar grandes projectos, reduzir custos, desenvolver mercados e competir globalmente. A Three Seas já representa uma região económica de grande dimensão e, segundo a documentação da iniciativa, reúne mais de 120 milhões de habitantes e um PIB combinado superior a 3,5 biliões de euros.

A escala permite pensar numa espécie de mercado regional de segurança e tecnologia. Uma empresa polaca pode desenvolver um sistema, uma empresa checa produzir componentes, uma empresa romena fabricar outro elemento, uma empresa lituana desenvolver software e uma empresa ucraniana acrescentar experiência operacional. O resultado não seria uma soma de empresas nacionais isoladas, mas uma cadeia industrial regional. E, mais uma vez, o princípio seria o mesmo: o conhecimento pode ser especializado; a capacidade deve ser distribuída.

Esta lógica não exige que todos os países participem em tudo. Pelo contrário, poderia existir uma geometria variável. Alguns poderiam aprofundar a cooperação em defesa aérea; outros em cibersegurança; outros em energia, drones, indústria naval ou logística. O importante seria garantir interoperabilidade e redundância nas capacidades essenciais. Isso permitiria avançar mais rapidamente onde existe vontade política sem obrigar todos os Estados a adoptar exactamente as mesmas políticas.

A relação com a NATO e a União Europeia seria decisiva. Um Intermarium 2.0 não deveria substituir nenhuma das duas. A União Europeia continuaria a fornecer integração económica, jurídica e política; a NATO continuaria a fornecer defesa colectiva e dissuasão transatlântica; a Three Seas continuaria a desenvolver conectividade, energia, digitalização e investimento; e o Intermarium 2.0 poderia fornecer uma camada regional de resiliência, capacidades distribuídas, mobilidade, indústria estratégica e cooperação de segurança. A própria NATO está a defender uma Europa mais capaz dentro da Aliança, reforçando simultaneamente produção, interoperabilidade e responsabilidade europeia. Na cimeira de Ancara de 2026, os aliados reafirmaram o artigo 5.º e a necessidade de uma “stronger Europe in a stronger NATO”.

O conceito fundamental seria, portanto, o de interdependência resiliente. Os Estados devem depender uns dos outros o suficiente para terem interesse na estabilidade colectiva, mas não tanto que a perda de um único parceiro provoque o colapso dos restantes. Se uma fábrica deixar de produzir, outra deve poder assumir parte da produção. Se uma ferrovia for destruída, outra deve poder substituí-la. Se um porto ficar indisponível, outros devem absorver parte do tráfego. Se uma rede energética falhar, devem existir alternativas. Se um centro de dados for destruído, os serviços devem continuar disponíveis noutros locais. Se uma fábrica de defesa for atingida, a produção não deve desaparecer.

É esta arquitectura que transforma uma região em sistema.

E é também aqui que o Intermarium 2.0 pode produzir riqueza. Construir uma ferrovia resiliente cria comércio, mas também cria mobilidade estratégica. Construir uma rede eléctrica integrada cria eficiência, mas também cria segurança energética. Construir uma indústria de drones cria capacidade militar, mas também cria exportações e tecnologia. Criar centros de investigação cria inovação, mas também cria capacidade de defesa. Criar portos modernos aumenta o comércio, mas também melhora a logística estratégica. O mesmo investimento pode produzir crescimento económico em tempo de paz e capacidade de resistência em tempo de crise.



A geografia da segurança europeia está, aliás, a adquirir novas dimensões. A cooperação entre os Estados do flanco oriental, os países nórdicos e os aliados da região do Báltico aproxima cada vez mais os espaços que vão do Mar Negro ao Báltico e ao Norte da Europa. Não é necessário transformar estas estruturas numa única organização. Pode ser mais eficaz criar redes sobrepostas: Three Seas, B9, cooperação nórdica, NATO, União Europeia e Ucrânia, cada uma com a sua função, mas com pontos de ligação.

É por isso que o Intermarium 2.0 deveria ser entendido como uma rede de redes, e não como um novo bloco. O Intermarium histórico foi pensado em grande medida como uma entidade política ou federativa. O Intermarium do século XXI poderia ser completamente diferente. Não precisaria de território político comum, de uma capital ou de um exército único. Poderia ser uma arquitectura composta por infra-estruturas, indústrias, forças armadas, centros tecnológicos, sistemas energéticos, cadeias logísticas, instituições financeiras e mecanismos de cooperação. O poder estaria precisamente na ligação entre elas.

No fundo, o conceito assenta em três princípios: conectividade, resiliência e dissuasão. Conectividade para ligar o Báltico, o Adriático e o Mar Negro através de transportes, energia e redes digitais. Resiliência para garantir que essas redes possuem redundância e não dependem de pontos únicos de falha. E dissuasão para transformar essa resiliência em capacidade de defesa e numa maior dificuldade para qualquer actor externo exercer coerção sobre a região. Mas existe um quarto princípio transversal: partilha! Partilhar tecnologia, conhecimento, produção, informação, infra-estruturas e capacidade.

Porque uma região segura não é aquela em que cada país possui uma pequena fortaleza isolada. É aquela em que as capacidades estão ligadas entre si e nenhuma delas constitui o único suporte do sistema.

É curioso regressar ao ponto de partida. Em 1658, a proposta de Hadiach procurava criar uma República das Três Nações. Séculos depois, Piłsudski procurou criar uma comunidade entre os mares. Nenhum desses projectos sobreviveu como instituição. Mas a questão geopolítica continuou. Hoje, porém, existe uma diferença fundamental: a região possui instituições europeias comuns, uma aliança militar transatlântica, mercados integrados, tecnologia, capital, infra-estruturas e uma plataforma regional que já se estende precisamente entre os três mares.

A Three Seas Initiative pode, portanto, representar a primeira camada material de algo maior. Não é necessário reinventar a região. É necessário ligar aquilo que já existe.

Um Intermarium 2.0 poderia começar por objectivos relativamente concretos: criar uma rede regional de infra-estruturas de uso dual; desenvolver corredores Norte-Sul com capacidade de mobilidade militar; criar redundância nas redes energéticas e digitais; distribuir capacidades industriais de defesa por vários países; criar cadeias de produção comuns para tecnologias estratégicas; desenvolver reservas e stocks distribuídos; criar mecanismos de cooperação em cibersegurança e protecção de infra-estruturas; desenvolver sistemas interoperáveis de vigilância, defesa aérea e resposta a crises; integrar a experiência tecnológica e militar da Ucrânia; utilizar a reconstrução da Ucrânia para aprofundar a integração económica regional; criar instrumentos financeiros para projectos simultaneamente económicos e estratégicos; e, sobretudo, garantir que nenhuma capacidade crítica dependa de um único Estado, empresa, rota ou instalação.

Se tivéssemos de resumir toda a proposta numa única frase, seria esta:

Especialização tecnológica. Partilha de capacidades. Redundância estratégica distribuída.

Essa poderia ser a verdadeira inovação do Intermarium 2.0. Não uma região em que cada país produz uma coisa, mas uma região em que vários países conseguem produzir, manter, substituir e desenvolver as capacidades essenciais uns dos outros. Não uma cadeia linear, mas uma rede. Não uma fortaleza, mas um sistema distribuído. Não uma aliança criada contra alguém, mas uma comunidade construída para ser suficientemente resiliente para que a coerção externa se torne muito mais difícil.

A história do Intermarium começou como uma resposta a uma geografia. Hoje podemos responder a essa mesma geografia com instrumentos completamente diferentes. A União Europeia fornece escala. A NATO fornece defesa colectiva. A Three Seas fornece conectividade. A Ucrânia fornece experiência estratégica e tecnológica. E os Estados da Europa Central e Oriental possuem uma oportunidade que não existia no passado: construir colectivamente a sua própria resiliência.




Não se trata de criar uma nova divisão da Europa. Trata-se de tornar a Europa mais forte. Não se trata de substituir a NATO. Trata-se de aumentar a capacidade europeia dentro da arquitectura euro-atlântica. Não se trata de transformar a Three Seas numa aliança militar. Trata-se de reconhecer que as infra-estruturas que a Three Seas está a construir já possuem uma dimensão estratégica.

E não se trata de concentrar capacidades.

Trata-se exactamente do contrário: distribuí-las.

Porque uma região em que uma única fábrica, um único porto, uma única ferrovia, uma única rede energética ou um único centro tecnológico pode ser destruído e provocar um efeito sistémico é uma região vulnerável. Uma região em que existem alternativas, redundâncias e capacidade distribuída é muito mais difícil de paralisar.

Essa é a lógica do Intermarium 2.0.

Do Báltico ao Adriático. Do Adriático ao Mar Negro. Da conectividade à resiliência. Da resiliência à dissuasão. Da especialização à capacidade partilhada. Da dependência à interdependência resiliente.

Quatro séculos depois de Hadiach, a questão já não é criar uma República das Três Nações. A questão é outra:

Será possível transformar os três mares numa comunidade estratégica capaz de se defender, prosperar e resistir em conjunto?



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A ALMA DA EUROPA

 O que é a Europa?

Uma geografia? Um conjunto de Estados? Um mercado comum? Uma união política?

Ou existe alguma coisa mais profunda que, apesar das guerras, das fronteiras e das mudanças políticas, permite falar de uma civilização europeia?

Esta pergunta não nasceu com a União Europeia.

Durante séculos, a Europa foi formada por povos diferentes, reinos, principados, cidades, comunidades e impérios. Havia várias línguas, diferentes tradições jurídicas e políticas e identidades próprias. Ainda assim, existiam elementos culturais e espirituais que atravessavam fronteiras.

A Europa medieval foi profundamente marcada pelo cristianismo. Mais tarde, redes intelectuais, comerciais, políticas e dinásticas continuaram a ligar territórios que nunca constituíram um único Estado.

Os Habsburgos constituem um dos exemplos mais evidentes dessa Europa plural. Durante séculos governaram territórios habitados por povos diferentes, com línguas, religiões, tradições e direitos próprios.

Os Vasa, os Habsburgos, os Avis e outras casas europeias cruzaram-se através de casamentos, alianças e relações políticas. Mas esta é apenas uma parte de uma história muito maior.

Ao longo dos séculos surgiram diferentes tentativas de pensar uma Europa capaz de ultrapassar os seus conflitos. Houve projectos de paz entre Estados, propostas de federação, movimentos intelectuais e diferentes concepções sobre aquilo que poderia unir povos europeus sem eliminar as suas identidades.

A Europa das nações trouxe depois uma nova realidade. A soberania nacional tornou-se o princípio dominante da organização política do continente, mas as rivalidades entre Estados também contribuíram para os conflitos que culminaram nas duas guerras mundiais.

Depois de 1945 surgiu uma nova etapa.

Em 9 de Maio de 1950, Robert Schuman propôs colocar a produção franco-alemã de carvão e aço sob uma autoridade comum. A ideia era criar uma solidariedade concreta que tornasse uma nova guerra entre antigos rivais não apenas impensável, mas materialmente impossível. A CECA, criada em 1951, tornou-se o primeiro passo de uma construção institucional que viria a conduzir à actual União Europeia. [1]

Mas a Europa que nasceu depois da guerra não era simplesmente a Europa anterior com novas instituições.

Era uma nova experiência. A questão passou a ser como construir uma unidade política e económica sem eliminar os Estados, as nações e as identidades que compunham o continente.

Unidade sem uniformidade

É aqui que surge um princípio fundamental para compreender uma determinada concepção de Europa: a subsidiariedade.

A ideia é simples.

Aquilo que uma pessoa pode fazer deve permanecer com a pessoa. Aquilo que uma família pode resolver não precisa de ser transferido para uma comunidade maior. Aquilo que uma comunidade ou um município pode resolver não precisa necessariamente de passar para o Estado.

E aquilo que um Estado pode resolver adequadamente não precisa necessariamente de ser decidido ao nível europeu.

O princípio não significa ausência de autoridade. Significa que a autoridade deve ser exercida no nível adequado.

Na actual União Europeia, esta ideia está inscrita no artigo 5.º do Tratado da União Europeia. Nas áreas que não são de competência exclusiva da União, esta só deve actuar quando os objectivos não possam ser suficientemente alcançados pelos Estados, incluindo os níveis regional e local, e possam ser melhor alcançados ao nível europeu devido à dimensão ou aos efeitos da questão. [2]

A subsidiariedade estabelece assim uma relação entre unidade e autonomia, autoridade e responsabilidade.

E há aqui uma diferença fundamental entre uma Europa unida e uma Europa uniformizada.

Uma comunidade política pode partilhar determinadas competências sem que todas as decisões tenham de ser concentradas num único centro.

Uma experiência secular no espaço público

É neste ponto que a experiência de Carlos, Otto e Karl von Habsburg merece atenção.

Carlos I recebeu uma experiência política acumulada durante séculos. Quando a Monarquia Austro-Húngara entrou em colapso, procurou responder à crise através de uma solução federal, defendendo em 1918 uma reorganização da Áustria em que as diferentes nacionalidades pudessem constituir as suas próprias entidades políticas. [3]

Não era simplesmente uma questão de conservar uma dinastia. Era também uma tentativa de encontrar uma forma política capaz de conciliar unidade e diversidade.

Décadas depois, Otto von Habsburg levou para o espaço público europeu a memória dessa experiência.

Já não existia o Império Austro-Húngaro. A Europa estava dividida entre Estados-nação, regimes totalitários e, posteriormente, dois grandes blocos.

Otto tornou-se uma figura importante dos movimentos e instituições europeias e foi deputado ao Parlamento Europeu entre 1979 e 1999. O próprio Parlamento Europeu destaca na sua obra a preocupação com a segurança e defesa europeias e com o equilíbrio entre a dimensão supranacional da Europa e a posição das regiões e minorias. [4]

Aqui encontramos algo que merece atenção.

Otto não procurou simplesmente restaurar a ordem política desaparecida dos Habsburgos.

Transportou para uma Europa completamente diferente uma experiência histórica: a possibilidade de uma comunidade política plural, na qual diferentes povos pudessem conservar uma posição própria dentro de uma estrutura comum.

A alma da Europa

Karl von Habsburg leva esta reflexão para o século XXI.

Num discurso dedicado precisamente à “alma da Europa”, Karl afirmou que a liberdade e a dignidade humana fazem parte da alma e da identidade europeias. Associou essa ideia ao Estado de direito, à liberdade individual, à responsabilidade dos cidadãos e às raízes cristãs da Europa. [5]

Mas há um aspecto particularmente importante.

Karl não apresenta a subsidiariedade apenas como uma regra técnica para dividir competências entre Bruxelas e os Estados.

Ele recupera uma concepção mais profunda, ligada à tradição da doutrina social católica: aquilo que pode ser realizado por uma pessoa ou por uma comunidade menor não deve ser retirado dessa esfera para ser assumido por uma autoridade superior.

No seu discurso, Karl relaciona explicitamente esta ideia com a tradição de Quadragesimo Anno, de Pio XI, e critica uma Europa excessivamente reguladora e centralizadora. Para ele, subsidiariedade significa também liberdade, iniciativa e responsabilidade. [5]

Assim, a “alma da Europa” não seria apenas aquilo que as instituições europeias conseguem administrar.

Seria também aquilo que permitem às pessoas e às comunidades continuar a fazer por si próprias.

Uma Europa capaz de agir

Existe ainda outra dimensão na reflexão de Karl.

Para ele, a Europa não pode limitar-se a ser um espaço económico ou administrativo. Precisa de possuir capacidade política para defender os seus interesses, a sua liberdade e a sua segurança.

Em 2024, Karl defendeu uma maior responsabilidade europeia em matéria de política externa, segurança, apoio à Ucrânia, defesa da democracia, liberdade económica e Estado de direito. [6]

Em Janeiro de 2026 foi ainda mais explícito, defendendo uma verdadeira política externa e de segurança europeia e uma maior capacidade da União para agir perante os desafios geopolíticos. [7]

É aqui que algumas das preocupações de Otto e Karl ganharam uma nova actualidade.

Durante décadas, a segurança europeia pareceu uma questão distante para grande parte da sociedade europeia. Hoje, perante a guerra na Ucrânia e a transformação do ambiente estratégico europeu, defesa, segurança, fronteiras externas e capacidade de decisão voltaram ao centro da discussão.

Isto não significa que Otto ou Karl tenham previsto todos os acontecimentos actuais.

Significa algo mais interessante. Algumas das perguntas que colocaram continuam sem resposta.

O que deve permanecer quando a Europa se une?

Que Europa queremos construir?

Uma Europa que seja apenas um espaço económico?

Uma Europa cada vez mais integrada politicamente?

Uma Europa de Estados soberanos que cooperam entre si?

Ou uma comunidade de povos capaz de unir diferentes identidades sem as apagar?

E, sobretudo, o que deve permanecer quando a Europa se une?

Talvez seja esta a verdadeira questão da alma da Europa.

A história europeia mostra que unidade e diversidade nunca foram necessariamente opostas.

A experiência secular europeia foi precisamente a tentativa, muitas vezes imperfeita e contraditória, de fazer coexistir ambas.

Carlos, Otto e Karl não inventaram essa experiência.

Trouxeram-na novamente para o espaço público.

E talvez seja por isso que as suas palavras continuam a merecer ser ouvidas.

A Europa mudou muitas vezes de forma.

A pergunta fundamental permanece:

O que é aquilo que faz da Europa uma comunidade? 

 

Talvez a resposta mais abrangente esteja no discurso de Karl em 2022:

“Freiheit und Menschenwürde sind Bestandteil der europäischen Seele, der europäischen Identität.”

Ou seja:

“A liberdade e a dignidade humana fazem parte da alma europeia, da identidade europeia.”

Depois acrescenta algo ainda mais profundo: ao procurar as raízes dessa alma, encontramos o cristianismo e a tradição judaico-cristã. 

Fontes

[1] União Europeia, Declaração Schuman, 9 de Maio de 1950. A declaração propôs a CECA como primeiro passo concreto para uma Europa unida e associou a integração à paz e à solidariedade. [União Europeia]

[2] União Europeia, Tratado da União Europeia, artigo 5.º. Define os princípios da atribuição de competências, subsidiariedade e proporcionalidade. Parlamento Europeu, O princípio da subsidiariedade.

[3] Carlos I, Manifesto ao povo austríaco, 16 de Outubro de 1918. A proclamação defendia uma reorganização federal da Áustria e uma solução política baseada nas diferentes nacionalidades.

[4] Parlamento Europeu, Mémoires d'Europe, Otto von Habsburg. A fonte apresenta a actividade europeia de Otto, a sua defesa da integração europeia e a sua preocupação com segurança, defesa, regiões e minorias.

[5] Karl von Habsburg, Der Kampf um die Seele Europas, 11 de Janeiro de 2022. É a fonte principal para a concepção de “alma da Europa”, liberdade, dignidade humana, Estado de direito, subsidiariedade e raízes cristãs.

[6] Karl von Habsburg, Mut zur Verantwortung, 11 de Janeiro de 2024. Discurso sobre a responsabilidade europeia, política externa, segurança, Ucrânia, liberdade e Estado de direito.

[7] Karl von Habsburg, Europa muss Verantwortung wahrnehmen, 11 de Janeiro de 2026. Discurso sobre política externa e de segurança europeia e a necessidade de maior capacidade europeia de actuação.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Da Torah à Eucaristia

Sacrifício, Aliança, Páscoa, Memorial e a entrega de Cristo

A Eucaristia é frequentemente apresentada como uma doutrina que apareceu posteriormente no cristianismo, desenvolvida pela Igreja a partir de uma interpretação particular das palavras de Jesus. Mas essa leitura começa pelo fim. Para compreender o que acontece na Última Ceia, é necessário voltar ao princípio e seguir a própria arquitectura das Escrituras: sacrifício, sangue, Aliança, Páscoa, memorial, refeição e comunhão. A questão não é começar por perguntar se a doutrina católica está certa ou errada, mas perceber primeiro o que Jesus está efectivamente a fazer quando, durante uma refeição pascal, toma pão e vinho, identifica-os com o seu corpo e sangue e ordena aos discípulos que repitam aquele acto. A partir daí, a discussão sobre a natureza da Eucaristia deixa de ser uma questão isolada e passa a fazer parte de uma história que começa na Torah e atravessa todo o Antigo Testamento.

Na Torah, o sacrifício não pode ser reduzido simplesmente à ideia de matar um animal para satisfazer uma divindade. A própria palavra hebraica קָרְבָּן  qorbān está relacionada com a raiz q-r-b, “aproximar-se”. A oferta pertence à lógica da aproximação a Deus. Existem diferentes tipos de ofertas e diferentes funções rituais, mas aquilo que emerge progressivamente é uma relação entre oferta, sangue, altar, Aliança e comunhão. No entanto, a Bíblia nunca deixa que esta prática seja entendida simplesmente como uma espécie de mecanismo mágico através do qual o homem compra o favor de Deus. O próprio Deus declara através do salmista: “Acaso como eu carne de touros, ou bebo sangue de bodes?” (Salmo 50:13). A resposta é obviamente negativa. O mundo inteiro pertence a Deus: “Minha é toda a fera do bosque” (Salmo 50:10). O sacrifício não alimenta Deus nem satisfaz uma necessidade material da divindade. É o homem que, através da oferta, aprende a reconhecer que a própria vida e tudo aquilo que possui dependem de Deus.

É neste contexto que o sangue adquire uma importância que, para a mentalidade moderna, pode parecer estranha. Levítico explica: “Porque a vida da carne está no sangue; e eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas vidas” (Levítico 17:11). A palavra hebraica nefesh, aqui traduzida por “vida”, designa o ser vivente, a vida enquanto realidade que pertence a Deus. O sangue não é mágico; representa a vida. Por isso, dentro da lógica bíblica, derramar sangue sobre o altar não significa simplesmente oferecer uma substância a Deus. Significa colocar diante de Deus aquilo que representa a própria vida. O sacrifício é, portanto, linguagem de entrega, expiação, pertença e comunhão.



Mas a própria Bíblia começa a corrigir qualquer interpretação mecânica do sacrifício. Os profetas denunciam repetidamente a tentativa de separar o ritual da vida moral. Deus diz através de Oseias: “Porque eu quero misericórdia, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Oseias 6:6). Samuel declara: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22). Isaías é ainda mais contundente: “De que me serve a mim a multidão dos vossos sacrifícios?” (Isaías 1:11), exigindo depois: “Aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo” (Isaías 1:17). A Bíblia não está simplesmente a abolir o sacrifício. Está a revelar que o ritual sem conversão é vazio. Deus não pode ser comprado por uma oferta enquanto o homem continua a praticar injustiça. O sacrifício só faz sentido quando expressa uma realidade verdadeira entre Deus e o homem.



Esta evolução é fundamental para compreender Jesus. Ele não aparece como alguém que chega a Israel para simplesmente destruir a Torah e substituí-la por uma religião completamente diferente. Pelo contrário, afirma explicitamente: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas cumprir” (Mateus 5:17). E, quando confrontado com questões sobre a interpretação da Lei, Jesus não age como alguém indiferente à Torah. Ele interpreta-a, aprofunda-a e recoloca o seu centro naquilo que considera ser a intenção fundamental de Deus. Quando cita Oseias  “Misericórdia quero, e não sacrifício” (Mateus 9:13; 12:7), está precisamente a recuperar a crítica profética ao ritual separado da verdadeira conversão.

É neste ponto que a Páscoa se torna essencial. A Páscoa não é apenas uma das muitas festas de Israel. É a memória litúrgica da libertação fundadora do povo. Em Êxodo 12, encontramos juntos vários elementos que mais tarde serão fundamentais para compreender a Última Ceia: cordeiro, sangue, libertação, refeição e memorial. Deus ordena que o cordeiro seja preparado e que o seu sangue seja colocado nos umbrais das portas (Êxodo 12:7). Depois, o animal é comido numa refeição ritual (Êxodo 12:8-11). E Deus estabelece: “Este dia vos será por memorial (zikkaron) e o celebrareis como festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (Êxodo 12:14). O zikkaron é uma memória litúrgica: não significa que o acontecimento histórico se repita fisicamente, mas que a comunidade mantém através de uma acção ritual a memória daquilo que Deus realizou e que constitui a sua identidade enquanto povo da Aliança.

A Páscoa também mostra que sacrifício e refeição não são conceitos necessariamente separados na Bíblia. O cordeiro é sacrificado e depois comido. A oferta está ligada à comunhão. Isto é importante porque, séculos depois, Jesus não escolhe uma ocasião qualquer para instituir aquilo que os cristãos chamarão Eucaristia. Ele escolhe precisamente uma refeição pascal.

Mas há outra dimensão que temos de acrescentar: a Aliança. Em Êxodo 24, depois da entrega da Lei, Moisés constrói um altar, são oferecidos sacrifícios e o sangue é utilizado no estabelecimento da Aliança. Moisés declara ao povo: “Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco” (Êxodo 24:8). Temos aqui uma estrutura que se tornará decisiva: sangue; Aliança; povo. A vida representada pelo sangue está associada à constituição da relação entre Deus e Israel.



É precisamente esta linguagem que Jesus retoma na Última Ceia. Lucas transmite as suas palavras: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim” (Lucas 22:19). Depois, sobre o cálice: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22:20). Aqui temos uma continuidade textual extraordinariamente importante. Em Êxodo encontramos “o sangue da aliança”; Jesus fala agora do “meu sangue” como sangue da Nova Aliança. Em Êxodo temos a Aliança estabelecida através do sangue sacrificial; na Última Ceia Jesus coloca a sua própria morte dentro dessa linguagem.

É aqui que o zikkaron entra apenas como uma peça do argumento, e não como uma explicação isolada da Eucaristia. A Páscoa era celebrada como zikkaron, “memorial”, através de uma acção litúrgica repetida pelas gerações. Na Última Ceia, Jesus diz “fazei isto em memória de mim”; Lucas utiliza o termo grego ἀνάμνησις - anamnēsis, “memória”, “recordação”, “memorial”. Não é necessário (nem seria rigoroso) afirmar que zikkaron ou anamnēsis significam literalmente “tornar presente”. As palavras não carregam, isoladamente, toda a teologia eucarística posterior. O que podemos afirmar é algo mais seguro: Jesus institui deliberadamente uma acção memorial dentro do contexto da Páscoa e associa esse memorial ao seu corpo oferecido e ao seu sangue da Nova Aliança. A continuidade entre Páscoa, memorial, Aliança, sacrifício e refeição está nos próprios textos.

E então surge a questão decisiva: o que é que Jesus está a oferecer? Aqui encontramos a transformação radical da lógica sacrificial. Jesus não diz aos discípulos para procurarem outro animal. Ele identifica a oferta consigo próprio: “Este é o meu corpo, que é dado por vós”. O sacrifício deixa de ser simplesmente uma vítima exterior oferecida pelo homem e torna-se a entrega da própria pessoa. Isto está em perfeita continuidade com aquilo que Jesus ensinava sobre o significado do seu seguimento: “Se alguém quer vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). E explica: “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa encontrá-la-á” (Mateus 16:25).

Jesus não ensina uma religião de sofrimento pelo sofrimento. Ensina a lógica da entrega. Quando diz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (João 15:13), está a definir o sacrifício em termos de amor levado à sua consequência máxima. E interpreta a própria missão dizendo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). O sacrifício cristão não é essencialmente destruição. É auto-oferta.

O Getsémani revela isso de forma particularmente clara. Jesus não procura a dor como se o sofrimento fosse um valor em si mesmo. Pelo contrário, pede: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”. Mas imediatamente acrescenta: “Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:42). Aqui encontramos o núcleo daquilo que significa sacrifício: não a procura masoquista do sofrimento, mas a entrega da própria vontade a Deus. A Cruz será a consequência dessa fidelidade. Jesus não oferece simplesmente alguma coisa; oferece-se.



É precisamente por isso que a Última Ceia deve ser lida em conjunto com a Cruz. Jesus interpreta antecipadamente a sua morte: “Este é o meu corpo, que é dado por vós”; “Este cálice é a nova aliança no meu sangue”. A sua morte não é apresentada apenas como uma execução romana que os discípulos posteriormente reinterpretaram. Jesus, antes da Paixão, atribui à sua morte um significado sacrificial, pactual e salvífico. A linguagem da Páscoa, do sangue da Aliança e da oferta é utilizada para interpretar aquilo que está prestes a acontecer.

E há ainda um detalhe extraordinário na própria Última Ceia. No Evangelho de João, o episódio do lava-pés ocupa o centro da narrativa (João 13:1-15). Jesus, depois de lavar os pés aos discípulos, diz: “Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (João 13:15). Isto impede que a Eucaristia seja entendida como um ritual mágico desligado da vida. O mesmo Cristo que diz “este é o meu corpo, que é dado por vós” é aquele que se ajoelha diante dos discípulos e lhes lava os pés. A lógica é exactamente a mesma: entrega, serviço e amor.

Esta ligação entre Eucaristia e vida aparece também na tradição apostólica. Paulo escreve aos Coríntios e transmite aquilo que apresenta como uma tradição recebida: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão...” (1 Coríntios 11:23). Seguem-se as palavras sobre o corpo e o cálice, culminando em: “Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim” (1 Coríntios 11:25). Isto é particularmente importante historicamente: estamos perante uma tradição eucarística que pertence à primeira geração cristã, muito antes de existir um Novo Testamento como livro fechado e muito antes de qualquer formulação medieval da doutrina católica.

E Paulo não trata esta celebração como uma simples recordação privada. Em 1 Coríntios 10, ao discutir a participação dos cristãos na Ceia do Senhor, utiliza linguagem de comunhão: “O cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16). E compara essa participação com a participação nos altares de Israel (1 Coríntios 10:18). Isto não resolve sozinho todas as questões posteriores sobre a presença real, mas demonstra que a compreensão apostólica da Ceia era muito mais densa do que “comer pão para nos lembrarmos de Jesus”.

O próprio Paulo demonstra que essa participação tem consequências morais. Em Corinto, alguns cristãos participavam da refeição enquanto desprezavam outros membros da comunidade. Paulo considera isso uma contradição gravíssima e afirma que quem come o pão ou bebe o cálice “indignamente” se torna culpado relativamente ao corpo e ao sangue do Senhor (1 Coríntios 11:27). Portanto, desde a primeira geração, a Eucaristia não podia ser separada da vida concreta. Não se pode receber o memorial da entrega de Cristo enquanto se recusa a viver segundo a lógica dessa mesma entrega.

A Carta aos Hebreus leva a reflexão sacrificial ainda mais longe. Cristo aparece simultaneamente como sacerdote e como aquele que oferece a própria vida, mas o autor insiste na singularidade do acontecimento: Cristo “uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26), e “uma vez se ofereceu para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Isto é fundamental para evitar um erro comum: a Eucaristia não significa que Jesus seja novamente morto. O Novo Testamento insiste precisamente no contrário: o sacrifício de Cristo é único e definitivo. A questão teológica posterior será compreender de que maneira esse único sacrifício é celebrado sacramentalmente no memorial que Cristo instituiu.

Chegamos então àquilo que talvez seja a maior transformação de todo o percurso bíblico. Na Torah, encontramos uma estrutura sacrificial na qual o homem apresenta uma oferta. Os profetas revelam que Deus não aceita o ritual separado da justiça. Na Páscoa, o sacrifício está ligado à libertação, à refeição e ao memorial. No Sinai, o sangue está ligado à Aliança. Jesus reúne essas linhas e coloca-se a si próprio no centro delas. Ele não oferece simplesmente uma vítima; ele oferece-se como vítima. Não estabelece simplesmente uma aliança; estabelece a Nova Aliança. Não manda simplesmente recordar um acontecimento; institui um memorial da sua própria entrega. Não entrega apenas uma oferta para ser colocada sobre um altar; dá o próprio corpo como alimento numa refeição de Aliança.



É por isso que a Eucaristia não deve ser compreendida isoladamente como uma doutrina católica posterior. Isso seria começar pelo resultado e ignorar a genealogia da ideia. Também seria insuficiente dizer, do outro lado, que Jesus apenas instituiu um “símbolo” e que tudo o resto foi invenção posterior. Essa conclusão também precisa de enfrentar os dados do texto: a Páscoa, o sangue da Aliança, o corpo dado, o sangue derramado, o memorial, a linguagem de comunhão utilizada por Paulo e a compreensão sacrificial da primeira geração cristã. Um ateu pode rejeitar a interpretação sobrenatural porque não aceita a premissa de revelação. Um cristão evangélico pode rejeitar a interpretação católica da presença real. Um judeu pode rejeitar a identificação de Jesus com a Nova Aliança. Mas nenhuma dessas posições deveria apagar a estrutura histórica e textual que está na origem da discussão.

E é aqui que uma questão importante sobre a tradição cristã precisa de ser colocada com honestidade. A Igreja desenvolveu posteriormente uma linguagem teológica muito mais precisa, sacrifício da Missa, presença real, transubstanciação, substância e acidentes, entre outras categorias. Essas formulações são posteriores aos textos bíblicos. Isso é um facto e não precisa de ser escondido. O que importa é perguntar se essas formulações são arbitrárias ou se procuram explicar uma realidade que já está presente na tradição recebida dos apóstolos. É uma diferença enorme. Dizer que uma formulação teológica é posterior não demonstra que aquilo que ela procura explicar seja uma invenção posterior.

A própria vida cristã é apresentada pelos apóstolos como uma extensão da lógica sacrificial de Cristo. Paulo escreve: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1). A expressão é extraordinária: “sacrifício vivo”. No sistema antigo, uma vítima era colocada sobre o altar. Em Cristo, o centro do sacrifício passa a ser a própria entrega. E no cristão, a consequência é que toda a existência pode tornar-se oferta. O altar já não é apenas o lugar onde alguma coisa é destruída; a própria vida torna-se uma resposta àquele que primeiro se entregou.



É aqui que se percebe a verdadeira continuidade entre Torah, Antigo Testamento e Novo Testamento. A Bíblia não apresenta uma sucessão arbitrária de religiões diferentes. Há uma evolução interna: aproximação; oferta; sacrifício;  Aliança; Páscoa; memorial; promessa; Cristo; Nova Aliança; Eucaristia;  vida oferecida. A forma muda, a compreensão aprofunda-se e a realidade para a qual os símbolos apontam atinge, na interpretação cristã, a sua plenitude em Cristo.

Por isso, esta afirmação pode finalmente ser formulada com precisão:

A Eucaristia não é uma ideia que o cristianismo inventou depois de Jesus. É a conclusão de uma arquitectura sacrificial, de Aliança e de memorial que começa na Torah e atravessa o Antigo Testamento. Jesus entra nessa arquitectura, assume-a, transforma-a ao identificar-se com a vítima e leva-a à sua plenitude na Nova Aliança.


 

E talvez a questão mais profunda não seja sequer “por que razão os cristãos comem o corpo e bebem o sangue de Cristo?”. A pergunta anterior é outra: por que razão Jesus escolheu precisamente a linguagem da Páscoa, do sacrifício, do sangue da Aliança, do memorial e da refeição para interpretar a sua própria morte? Quando seguimos essa cadeia até às suas raízes, a Eucaristia deixa de parecer uma ideia isolada ou uma construção tardia. Passa a ser aquilo que o próprio cristianismo afirma que é: o memorial sacramental da entrega de Cristo, dentro da Nova Aliança, cuja lógica já estava inscrita nas Escrituras de Israel e que Jesus levou à sua plenitude.