quarta-feira, 6 de maio de 2026

Jesus, Jonas o coração da terra o ventre do peixe e a dificuldade moderna em compreender expressões semitas

 

Uma das grandes dificuldades modernas na leitura dos Evangelhos é esta: tentamos ler expressões semitas através de categorias mentais ocidentais, pós-iluministas e quase burocráticas.



Queremos precisão cronológica, descrição técnica e literalismo anatómico.

Mas o pensamento semita não funciona assim.

Quando Jesus diz:

“Tal como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”

a maior parte das pessoas entra imediatamente numa discussão moderna:

  • Jonas foi literalmente engolido? Não

  • Jesus esteve exactamente 72 horas no túmulo? Não

  • Como encaixar sexta-feira e domingo? Difícil

O problema é que talvez estejamos a entrar no texto pela porta errada. 

No universo semita, “ventre”, “abismo”, “profundezas”, “Sheol” e “coração da terra” pertencem todos ao mesmo campo simbólico.

O próprio Jonas diz:

“Do ventre do Sheol clamei…”

Ou seja, o “ventre do peixe” já funciona como imagem de descida ao domínio da morte, ao caos e à agonia.

No imaginário hebraico e aramaico, o mar profundo representa o caos primordial. Cair nele é entrar numa condição de esmagamento, impotência e quase morte.

Mas existe ainda outro detalhe semita extremamente importante que quase desapareceu das leituras modernas.

Na tradição levantina antiga, ficar “três dias” dentro de um peixe não era apenas uma questão cronológica. A imagem estava associada ao estado de decomposição e ao cheiro da morte.

As entranhas de um grande peixe fechado ao calor rapidamente desenvolvem um odor nauseabundo, associado à putrefacção e ao contacto com a morte. O homem que saísse daquele ambiente carregaria consigo o cheiro do Sheol, o cheiro do sepulcro, o cheiro do fim.



É precisamente daí que vários estudiosos das expressões semitas defendem que nasce parte do idiomatismo.

“Estar na barriga do peixe” não descreve apenas localização física.
Descreve entrar num estado de corrupção, escuridão, decomposição simbólica e agonia.

O homem deixa o mundo dos vivos.
Entra no domínio do irrespirável.
No espaço da morte.

É aqui que a leitura de Rocco A. Errico ganha força. Segundo ele, “estar na barriga do peixe” deve ser entendido como expressão idiomática semita de extrema aflição, esmagamento interior e experiência de morte existencial.

Isto encaixa de forma impressionante na paixão de Jesus.

Porque Jesus não entra no sofrimento apenas quando o corpo é colocado no túmulo.

Getsémani já é descida.
O abandono dos discípulos já é descida.
A humilhação pública já é descida.
A tortura romana já é descida.



E até uma das frases mais mal compreendidas da cruz talvez precise de ser relida dentro do universo semita.

Quando Jesus diz:

“Eli, Eli, lama sabachthani?”

a tradução habitual é:

“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Mas Rocco Errico argumenta que a palavra aramaica por detrás da expressão não aponta necessariamente para “abandono” no sentido moderno.

Segundo esta leitura, a raiz semita pode carregar também o sentido de:

  • guardar,

  • preservar,

  • reservar,

  • deixar para um propósito,

  • destinar.

Ou seja, a frase poderia ser entendida muito mais como:

“Meu Deus, meu Deus, para que propósito me guardaste?”
ou
“para que propósito fui reservado?”

Isto muda completamente o tom da passagem.

Jesus deixaria de soar como alguém em colapso metafísico absoluto e passaria a soar como alguém mergulhado numa experiência extrema de sofrimento, mas ainda consciente de uma finalidade.



E isto encaixa precisamente com o Salmo 22 que Jesus está a citar.

No mundo judaico antigo, citar a primeira linha de um salmo era evocar o salmo inteiro.

E o Salmo 22 não termina em derrota.
Termina em vindicação. Em vitória.

Começa em sofrimento e humilhação, mas termina em confiança e reversão.

Mais uma vez, a linguagem semita mistura:

  • sofrimento,

  • pressão,

  • escuridão,

  • experiência de morte,

  • propósito,

  • esperança,

  • e reversão, numa única imagem viva.

Os Salmos estão cheios disto:
homens vivos falam como se já estivessem mortos, mas continuam a clamar porque ainda esperam resposta.

Além disso, existe outro problema raramente discutido: Jesus não passa literalmente “três dias e três noites” no túmulo.

A leitura cronológica rígida simplesmente não encaixa.

Então talvez a expressão nunca tenha sido um cálculo matemático moderno.

Talvez fosse precisamente aquilo que os semitas entendiam:
um período completo de descida ao sofrimento, ocultação e aparente derrota antes da reversão.

Jonas emerge do caos para cumprir a missão.
Jesus emerge do “coração da terra” para continuar aquilo que iniciou.

O paralelismo parece ser sobretudo existencial e profético, não zoológico nem cronográfico.

Mas o homem moderno sente-se desconfortável com isto.

Porque o pensamento semita fala através de imagens vivas, físicas e sensoriais.
Cheiros, sangue, terra, pó, entranhas, mar, respiração e escuridão.

Nós fomos treinados para pensar como contabilistas da linguagem.

Talvez por isso muitos leiam os Evangelhos sem realmente ouvir o mundo mental onde nasceram.

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