Entre os textos mais frequentemente citados do Apocalipse de João encontram-se duas passagens dirigidas às comunidades cristãs da Ásia Menor:
Ap 2:9 - “Conheço a tua tribulação e a tua pobreza, mas tu és rico e a blasfémia dos que se dizem judeus e não são, mas são sinagoga de satanás.”
Ap 3:9 -“Eis que farei vir os da sinagoga de satanás, os que se dizem judeus e não são, mas mentem; eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés.”
Estas frases são frequentemente usadas em debates ideológicos contemporâneos, mas quase sempre desligadas do contexto histórico e religioso do século I.
O contexto
O autor do Apocalipse escreve para comunidades cristãs da Ásia Menor no final do século I. Essas comunidades eram compostas sobretudo por judeus e gentios que seguiam Jesus Cristo como Messias.
Nesse período o movimento de Jesus ainda estava profundamente ligado ao judaísmo. Não existia ainda uma separação clara entre “cristãos” e “judeus”.
O conflito descrito em Apocalipse não é um conflito entre religiões diferentes, mas um conflito interno dentro do mundo judaico.
No pensamento bíblico antigo, “ser judeu” não era apenas questão de genealogia, mas de fidelidade à aliança de Deus.
A expressão “sinagoga de satanás” deve ser entendida dentro da linguagem profética judaica.
No hebraico bíblico, “satan” (שטן) significa literalmente adversário, obstáculo ou acusador. Lembram-se de Pedro quando barrou, e tentou demover o caminho e a decisão de Jesus?
Nos profetas hebraicos era comum denunciar grupos religiosos que, na visão do profeta, se tinham afastado da vontade de Deus.
O dispensacionalismo popular em muitos meios protestantes interpreta o Apocalipse como um mapa profético da história moderna. Nesse esquema, Israel moderno torna-se automaticamente protagonista das profecias. Mas essa abordagem frequentemente ignora que o Apocalipse foi escrito dentro de um ambiente semita do século I, onde as disputas eram internas ao judaísmo. E convinha denunciá-las.
Erro de leitura inicial
O Apocalipse de João é frequentemente lido como um livro de previsões sobre o fim do mundo. Essa leitura tornou-se comum sobretudo a partir de correntes modernas que interpretam o texto como um mapa profético do futuro. No entanto, essa abordagem ignora o significado da própria palavra que dá nome ao livro. O termo grego ἀποκάλυψις (apokálypsis) significa literalmente retirar o véu, tornar visível aquilo que estava coberto. Nesse sentido aproxima-se bastante do antigo significado da palavra portuguesa descobrir: o acto de retirar aquilo que cobre algo para que se torne visível. O objetivo do texto não é antecipar acontecimentos distantes, mas descobrir, isto é, revelar a realidade histórica e religiosa do seu próprio tempo, mostrando o que estava escondido por detrás das aparências do poder político e denunciar as dificuldades aos primeiros cristãos.
A realidade histórica daquele tempo
Para compreender o que o autor está a fazer é necessário situar o livro no ambiente histórico do século I. O cristianismo inicial não surgiu como uma religião separada, mas como um movimento dentro do judaísmo messiânico. Os primeiros seguidores de Jesus Cristo eram judeus que acreditavam que as promessas messiânicas das Escrituras de Israel tinham encontrado cumprimento na sua pessoa. Durante várias décadas esse movimento existiu no interior do mundo judaico, partilhando as Escrituras, a linguagem religiosa e as categorias teológicas do judaísmo do período.
Esse contexto tinha também uma dimensão política concreta. No Império Romano o judaísmo possuía um estatuto reconhecido pelas autoridades. As comunidades judaicas podiam manter as suas práticas religiosas e estavam dispensadas de certos cultos públicos ligados ao imperador. Gozavam de um estatuto de protecção legal.
Quando o movimento que seguia Jesus começou a crescer, surgiram tensões entre diferentes grupos dentro do próprio judaísmo sobre a identidade do Messias e a interpretação das Escrituras. Em várias cidades da Ásia Menor, alguns judeus passaram a denunciar os seguidores de Jesus às autoridades romanas, afirmando que eles não pertenciam ao judaísmo tradicional. Quando isso acontecia, os cristãos perdiam o estatuto jurídico de que os judeus gozavam e ficavam expostos à repressão imperial.
É nesse contexto que se devem ler as passagens de Apocalipse 2:9 e 3:9. Quando o autor fala daqueles “que se dizem judeus e não são”, está a utilizar uma linguagem típica da tradição profética judaica. A discussão não é étnica nem racial. Trata-se de uma disputa sobre a fidelidade às próprias Escrituras de Israel. Para o autor do Apocalipse, aqueles que rejeitam o carácter messiânico de Jesus estão a contrariar o sentido das promessas bíblicas. A expressão “sinagoga de satanás” deve ser entendida dentro desse quadro. No hebraico bíblico a palavra satan significa adversário, obstáculo ou acusador. O termo é usado para designar quem se opõe ao propósito de Deus. O autor está a afirmar que os opositores do movimento messiânico estão a agir como adversários daquilo que as próprias Escrituras anunciavam.
A leitura destas passagens fora desse contexto conduz facilmente a interpretações distorcidas. Quando se perde o enquadramento histórico do século I e o ambiente semita em que o texto foi escrito, surgem leituras que transformam a polémica religiosa interna do judaísmo antigo em afirmações de carácter étnico ou racial. Esse tipo de interpretação não corresponde ao pensamento do autor nem à realidade histórica do cristianismo nascente.
O Apocalipse de João não pretende construir teorias raciais nem oferecer previsões geopolíticas para épocas futuras. O livro procura descobrir a realidade do seu tempo, retirando o véu que encobria as relações entre poder político, conflito religioso e fidelidade às Escrituras. No centro dessa revelação está a afirmação de que Jesus Cristo é o Messias prometido nas tradições de Israel e que a história deve ser interpretada à luz dessa convicção.
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