sexta-feira, 13 de março de 2026

Os erros de ler Jesus fora do seu mundo semita


Um dos problemas mais frequentes nas discussões entre católicos e evangélicos é que ambos, muitas vezes, interpretam as palavras de Jesus através de categorias teológicas posteriores, ignorando o contexto linguístico e cultural em que ele realmente falou. Não pretendo atacar ninguém, apenas um puxão de orelhas, dado que as minhas investigações e leituras me levam a não pactuar com erros. (Desculpem o o texto longo)
Jesus não ensinou em latim nem em grego filosófico. Ele ensinou como um judeu galileu aramaicófono do século I. Os seus discípulos eram judeus galileus, formados na linguagem simbólica das Escrituras hebraicas, nas práticas da sinagoga e nas refeições rituais judaicas. Isso muda profundamente a forma como certas frases devem ser compreendidas.
Pegando no exemplo da ultima ceia, esta não surge do nada, como alguns cristãos julgam. As formulas usadas eram empregues, muito antes de Jesus as ter mencionado no ambiente judaico. Ele introduziu algo novo que mencionarei mais á frente.

Se quisermos compreender seriamente as palavras de Jesus na Última Ceia, é preciso começar por reconhecer esse erro metodológico, muito comum nas discussões entre católicos e evangélicos, acerca da tradição, porque abordam o texto do Novo Testamento fora do mundo em que ele nasceu.
A Ultima Ceia é judaica
A Última Ceia, surge como um ritual judaico que segue a estrutura de uma refeição judaica marcada pela berakhah, a bênção pronunciada sobre o pão e o vinho. A palavra hebraica berakhah (ברכה) significa bênção ou louvor, e tem origem na raiz BRK, que expressa o acto de reconhecer Deus como fonte da vida. A forma clássica dessa bênção dizia: “Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que faz sair o pão da terra.” Sobre o vinho dizia-se: “Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que cria o fruto da vinha.” Essas fórmulas existiam muito antes do cristianismo e eram recitadas em praticamente todas as refeições formais.

No entanto, na tradição judaica havia também um princípio importante: nem qualquer pessoa presidia a bênção sacramental numa refeição sagrada. No contexto do templo, os sacrifícios e as bênçãos associadas eram realizados pelos sacerdotes descendentes de Aarão. Nas refeições pascais familiares, quem presidia a bênção era o chefe da casa, que agia como representante da comunidade familiar diante de Deus. Em ambos os casos existe um elemento comum: a bênção ritual não é um gesto arbitrário de qualquer participante; é pronunciada por quem preside legitimamente à assembleia e foi empossado para o efeito!!!!
Quando os Evangelhos dizem que Jesus “deu graças”, o verbo grego utilizado traduz precisamente essa prática judaica da berakhah. Em outras palavras, a refeição começa dentro de uma tradição litúrgica perfeitamente normal no judaísmo.
O momento decisivo acontece quando Jesus toma esse gesto tradicional e lhe dá um significado novo. Depois da bênção e da partilha do pão, Ele acrescentou: “Isto é o meu corpo.” A frase costuma ser interpretada hoje através de categorias teológicas desenvolvidas séculos mais tarde.
No entanto, um judeu do século I, ouviria essas palavras dentro da lógica da linguagem semita. Nas línguas semíticas, expressões do tipo “isto é” nem sempre indicam identidade material absoluta. Muitas vezes indicam representação ou equivalência simbólica. Um exemplo claro encontra-se no livro do Génesis: ao interpretar o sonho do Faraó, José afirma que “as sete vacas são sete anos”. Evidentemente ninguém imagina que vacas se transformem literalmente em anos; trata-se de uma linguagem simbólica que estabelece correspondência entre um sinal e a realidade que ele representa.
Outro detalhe importante está na própria palavra “corpo”. A expressão aramaica que Jesus provavelmente usaria envolveria o termo pagra (ܦܓܪ). No pensamento semita essa palavra não designa apenas o corpo físico. Pode referir-se à pessoa inteira, à sua vida ou à existência entregue. Quando um judeu fala do corpo, frequentemente está a falar da pessoa na sua totalidade. Por isso, ao ouvir “isto é o meu corpo”, os discípulos provavelmente entenderam algo mais próximo de “isto sou eu entregue por vós” ou “esta é a minha vida dada por vós”. Literalmente! O pão torna-se assim um sinal da própria pessoa de Jesus que se oferece.
A frase seguinte reforça ainda mais esse quadro: “Fazei isto em memória de mim.” No mundo moderno a palavra memória sugere simplesmente recordar algo mentalmente. No entanto, na tradição bíblica o conceito é muito mais forte. O termo hebraico subjacente é zikaron (זכרון), que significa memorial. Na mentalidade semita, um memorial não é apenas lembrança psicológica; é uma ação litúrgica que torna presente um acontecimento fundador. Na celebração da Páscoa judaica, por exemplo, cada geração considera-se participante do êxodo narrado no livro do Êxodo. O evento passado torna-se presente na celebração. Quando Jesus manda repetir o gesto em sua memória, ele está a instituir precisamente um memorial desse tipo: uma ação que torna presente a sua entrega e a sua nova aliança, não uma recordação psicológica de alguém que se lembra de um falecido!
Zikaron, significa um memorial ativo, uma celebração que torna presente um acontecimento fundador da história de salvação. A Páscoa judaica é o exemplo mais claro. Quando os judeus celebram a libertação narrada no Êxodo, cada geração considera-se participante desse evento. O passado torna-se presente na celebração. Assim, quando Jesus manda repetir o gesto “em memória” dele, está a instituir um memorial nesse mesmo sentido bíblico: uma ação que torna presente a sua entrega e a nova aliança! Quem não percebe isto está em ERRO!
Este detalhe linguístico desmonta uma das leituras protestantes mais comuns, segundo a qual a Ceia do Senhor seria apenas uma recordação simbólica da morte de Jesus. A lógica de zikaron mostra que o memorial bíblico nunca foi entendido como mera lembrança mental. Trata-se de uma atualização litúrgica de um acontecimento salvador. Deviam estudar o Jesus histórico e a língua aramaica, aprenderiam mais do que visitarem Jerusalém!
Mas o contexto semita da Última Ceia esclarece também outro ponto frequentemente ignorado: a natureza do pão e do vinho utilizados na refeição. Historicamente, não se trata de pão comum nem de simples sumo de uva. A Última Ceia acontece dentro do contexto da Páscoa judaica, que utiliza pão ázimo, PÃO SEM FERMENTO E VINHO VERDADEIRO!!!! O pão ázimo é o pão da pressa do êxodo, sinal da libertação narrada no livro Êxodo, (afinal com tanto preciosismo, falha-se na sola scriputra...) Não é um pão qualquer; é um pão ritual ligado à memória da salvação. Da mesma forma, o vinho faz parte integrante da refeição pascal judaica. A tradição do Seder inclui várias taças de vinho ao longo da celebração. No judaísmo do século I, beber vinho era parte normal das refeições festivas (lembram-se do casamento? ) e das celebrações religiosas. A ideia de substituir o vinho por sumo de uva é um desenvolvimento muito tardio, ligado a contextos culturais modernos e não à tradição bíblica. É ERRO!!!
Por isso, quando Jesus toma o pão e o vinho e os associa à sua própria pessoa, ele está a reinterpretar elementos rituais já carregados de significado na tradição de Israel. O pão ázimo torna-se o sinal da sua vida entregue e o vinho torna-se o sinal da nova aliança no seu sangue. Aqui entra a consagração meus amigos! Estes elementos não são arbitrários nem intercambiáveis, porque pertencem à linguagem simbólica da própria Páscoa e tradição judaica.
Quando reunimos todos esses elementos, a estrutura da berakhah, o significado amplo da palavra aramaica pagra, o conceito bíblico de zikaron e o contexto pascal do pão ázimo e do vinho, percebemos que a Última Ceia está profundamente enraizada no universo religioso do judaísmo do século I. Jesus não está a criar um ritual desligado da tradição de Israel; está a reinterpretar a refeição pascal à luz da sua própria missão messiânica. O gesto cria um memorial vivo da sua entrega, que se torna o centro da vida das primeiras comunidades que reconheceram Nele o Messias e ainda para mais O Nazareno, termo que um dia explicarei pela carga simbólica que tem quando desmontamos a palavra em aramaico.
Ignorar a língua aramaica e o pensamento semita conduz facilmente a interpretações anacrónicas dos Evangelhos. Muitas polémicas teológicas posteriores nasceram precisamente porque o texto foi lido através de categorias culturais estranhas ao mundo em que foi pronunciado. Quando regressamos ao ambiente linguístico original de Jesus e dos seus discípulos, torna-se evidente que a Última Ceia não é apenas uma metáfora nem um simples gesto simbólico. É um acto profundamente enraizado na tradição bíblica de Israel, reinterpretado por Jesus como o memorial vivo da sua própria entrega e da nova aliança que inaugura. "Brincarem"com isto ou não darem a devida importância, é ERRADO! Implica o menosprezo por todo o sacrifica de Jesus. Mas há quem queira domesticar Deus...
Bibliografia
Joachim Jeremias – The Eucharistic Words of Jesus. London: SCM Press, 1966.
Matthew Black – An Aramaic Approach to the Gospels and Acts. Oxford: Clarendon Press, 1967.
Joseph A. Fitzmyer – A Wandering Aramean: Collected Aramaic Essays. Scholars Press, 1979.
George M. Lamsa – Gospel Light: Comments on the Teachings of Jesus from Aramaic and Unchanged Eastern Customs. Harper & Row, 1936.
Rocco A. Errico – Aramaic Light on the Gospels of Matthew, Mark, Luke and John. Noohra Foundation, 2005.
E. P. Sanders – Judaism: Practice and Belief 63 BCE–66 CE. Trinity Press International, 1992.
Brant Pitre – Jesus and the Jewish Roots of the Eucharist. Doubleday, 2011.

Didache (final do século I) 

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