1. PUTIN E A HISTÓRIA COMO ARMA POLÍTICA
Antes de invadir a Ucrânia, Vladimir Putin tentou fazer algo essencial para a sua futura guerra: transformar uma pretensão política numa inevitabilidade histórica.
Em Julho de 2021 publicou o ensaio «Sobre a Unidade Histórica de Russos e Ucranianos». A tese era clara. Russos e ucranianos seriam, no fundo, um só povo. A separação seria artificial. A Ucrânia moderna seria uma construção recente. E Moscovo seria a herdeira natural da antiga Rus'.
Poucos meses depois, a História transformava-se em guerra.
Putin nunca abandonou essa arma. Continua a recorrer à História para justificar politicamente a sua visão da Ucrânia e da Rússia. Muito recentemente, voltou a estar no centro de uma polémica precisamente por causa da História. Segundo o Financial Times, numa conversa de cerca de 90 minutos com o Presidente finlandês Alexander Stubb e o Primeiro-Ministro norueguês Jonas Gahr Støre, Putin dedicou grande parte do tempo à história eslava medieval e à interpretação do Kremlin sobre as origens da guerra. Støre e Stubb contestaram posteriormente a caracterização de que aquilo tivesse sido simplesmente uma «aula de História», mas a própria controvérsia demonstra algo evidente: Putin continua a considerar a História uma parte central do seu argumento político sobre a Ucrânia. Talvez exista aqui um dos aspectos mais perturbadores de toda esta situação: praticamente nenhum líder político europeu actual parece capaz de desmontar, ponto por ponto, a narrativa histórica que Putin apresenta.
Podem condenar a invasão. Podem discutir sanções, armas, fronteiras e negociações. Mas, quando Putin recua séculos e começa a construir a sua narrativa histórica, raramente alguém lhe responde no mesmo terreno, com conhecimento, datas, documentos, tratados e assinaturas.
E isso deixa Putin sozinho a contar a História. Não necessariamente porque a sua versão seja verdadeira, mas porque quase ninguém parece preparado para a desmontar imediatamente.É precisamente aí que está a sua força. E também a sua maior vulnerabilidade.
2. A PERGUNTA QUE PUTIN TEM DE RESPONDER
No momento em que Putin transforma uma interpretação histórica numa pretensão política e territorial, já não basta falar de genealogias, batalhas, principados e antepassados.
É preciso provar.
Putin gosta de apresentar muitas das suas posições como juridicamente fundamentadas. Invoca tratados, fronteiras, acordos, direitos históricos e sucessão de Estados.
Muito bem.
Então devemos aplicar à sua narrativa o mesmo critério.
Onde estão os documentos?
Onde está o acto que transferiu a autoridade de Kyiv para Moscovo?
Onde está a autoridade que autorizou essa transferência?
Onde está o tratado?
Onde está a assinatura?
Porque uma coisa é afirmar que se herdou algo. Outra é provar que essa herança foi efectivamente transferida.
É aqui que a grande narrativa começa a ter problemas.
3. A RUS' DE KYIV E A ASCENSÃO DA MOSCÓVIA
O primeiro problema da narrativa de Putin é transformar a Rus' de Kyiv numa espécie de versão primitiva da actual Rússia.
Não era.
A Rus' era um mundo político medieval, composto por diferentes principados e centros de poder. Kyiv ocupava uma posição central e extraordinariamente importante, mas não existia uma Rússia moderna à espera de nascer em Moscovo.
Depois vieram a fragmentação, as invasões, as guerras e a ascensão de novos centros políticos.
A Moscóvia cresceu porque se aliou á Horda Dourada.
Expandiu-se.
Absorveu territórios. E tornou-se, séculos mais tarde, uma potência imperial.
Isso é História. Mas daqui não resulta automaticamente que Moscovo tenha recebido juridicamente toda a herança política da antiga Rus'.
Há uma diferença fundamental entre tornar-se poderoso e receber uma transferência de soberania.
Uma conquista não é uma escritura de propriedade sobre todo o passado conquistado.
E uma genealogia não é um acto jurídico.
Por isso, a pergunta mantém-se.
Quem transferiu Kyiv para Moscovo?
Onde está o documento? Onde estão as assinaturas?
4. PEREIASLAV, 1654: O ACORDO QUE NÃO FECHOU A HISTÓRIA
A narrativa imperial russa apresenta Pereiaslav como o momento da chamada «reunificação». A fórmula é conhecida: os cossacos teriam regressado definitivamente à Rússia.
Mas essa frase simplifica brutalmente aquilo que realmente aconteceu. Bohdan Khmelnytsky e a liderança cossaca encontravam-se numa situação militar e política extremamente complexa. Procuravam aliados. Tentavam sobreviver a uma guerra. Procuravam preservar direitos, autonomia e capacidade política.
Houve a Rada de Pereiaslav. Houve juramentos, apenas dos cossacos. Houve negociações.
Mas houve também um problema fundamental.
Os cossacos esperavam garantias recíprocas. O representante do czar, Vasily Buturlin, recusou prestar, em nome do czar, um juramento equivalente que garantisse os direitos e as liberdades cossacas.
Do ponto de vista moscovita, o czar não jurava aos seus súbditos. Esta diferença não é um detalhe.
Revela que as duas partes não entendiam necessariamente da mesma forma a relação que estavam a estabelecer. A liderança cossaca podia encarar essa ligação como uma relação política com compromissos e garantias. Moscovo interpretava-a dentro de uma lógica de sujeição ao czar.
Por isso, apresentar Pereiaslav como uma simples escritura através da qual a Ucrânia teria sido entregue para sempre à Rússia é uma simplificação posterior.
E há uma pergunta ainda mais incómoda. Se Pereiaslav tinha resolvido tudo definitivamente em 1654, porque é que, apenas quatro anos depois, a liderança cossaca estava novamente a negociar o seu futuro político?
5. HADIACH, 1658: QUATRO ANOS DEPOIS
A resposta chama-se Hadiach.
Em 1658, apenas quatro anos depois de Pereiaslav, foi concluído o Tratado de Hadiach entre a liderança cossaca de Ivan Vyhovsky e representantes da Comunidade Polaco-Lituana, no quadro da autoridade do rei João II Casimiro Vasa.
E aqui existe uma diferença essencial. Estamos perante um processo político documentado. Existem interlocutores identificados. Existem representantes. Existe autoridade. Existe um texto. Existiu negociação.
E existe um projecto político concreto. Uma união para formar a República das Três Nações : Lituânia, Polónia, Ruténia.
A pergunta é simples. Se, em 1654, o futuro político da comunidade cossaca tinha sido entregue definitiva e eternamente ao czar, como explicar que, quatro anos depois, essa mesma liderança estivesse formalmente a negociar uma nova arquitectura política?
Não estamos a falar de quatro séculos. Estamos a falar de quatro anos. E esse facto, por si só, destrói a ideia de que Pereiaslav encerrou definitivamente o futuro político da Ucrânia cossaca.
6. POLÓNIA, LITUÂNIA E RUTÉNIA, a Républica das Três Nações
O Tratado de Hadiach procurava reorganizar a Comunidade numa estrutura que reconhecia não apenas a Polónia e a Lituânia, mas também a Ruténia.
Polónia.
Lituânia.
Ruténia.
Não devemos projectar o conceito moderno de Estado-nação para o século XVII. A Ruténia daquele tempo não era a Ucrânia moderna nos termos actuais. Mas existiu um levantamento topográfico efectuado pelo francês Guilhame Le Vasseur de Beuplan, em 1630, e na sua cartografia passou a identificar a Ukraina/Ukrania! Mais tarde dedica a sua obra Description d' Ukranie a João II Casimiro Vasa.
Existiam elites. Instituições. Interesses. Forças militares. Uma tradição religiosa.
E capacidade de negociação.
A liderança cossaca não era uma população passiva à espera que Moscovo lhe dissesse quem era.
Fazia política.
Negociava com Varsóvia.
Negociava com Moscovo.
Procurava alianças.
Defendia interesses.
Tentava preservar direitos e autonomia.
Estava à mesa.
O projecto de Hadiach procurava também reconhecer institucionalmente a posição das elites cossacas e da hierarquia ortodoxa a par com os seus contrapartes polacos e lituanos. A Igreja Ortodoxa e os seus direitos faziam parte da negociação.
Isto é fundamental. Desmonta a ideia de que as populações rutenas eram apenas uma massa humana sem instituições próprias, naturalmente destinada a integrar-se numa Rússia eterna, como a propaganda russa tenta fazer acreditar.
Tinham instituições. Tinham uma Igreja. Tinham hierarquias. Tinham chefias militares. Tinham interesses políticos.
E negociavam.
É neste contexto que a dinastia Vasa entra naturalmente nesta história. Reconheceram a realidade rutena/ucraniana e a liderança cossaca foram reconhecidas e integradas num projecto político negociado no quadro da autoridade de João II Casimiro Vasa.
O tratado existiu. Os representantes existiram. O processo político existiu. E os documentos existem. E João II Casimiro jurou!
7. QUEM PODIA TRANSFERIR A HERANÇA DA RUS'?
Séculos mais tarde, o Império Russo desenvolveu uma narrativa cada vez mais poderosa sobre a sua ligação exclusiva à herança da Rus'.
Mas aqui devemos separar duas coisas. Uma coisa é construir uma narrativa histórica. Outra é realizar uma transferência jurídica de soberania.
Figuras como Feofan Prokopovych tiveram um papel importante na construção ideológica da nova linguagem imperial durante o período de Pedro I.
Feofan Prokopovych era um prelado e um intelectual influente. Não era uma autoridade capaz de transferir soberania de Kyiv para Moscovo.
Podia defender uma ideia. Podia construir uma narrativa. Podia legitimar ideologicamente o poder imperial.
Mas uma narrativa não substitui um tratado. E uma teoria não substitui uma assinatura.
É aqui que a grande narrativa imperial russa revela a sua fragilidade e se desmorona, como está patente no Sefer Zerubbabel: Menahem ben Ammiel aproxima-se e sopra no rosto de Armilus, matando-o. A verdade vençe sempre a estátua inanimada.
8. ONDE ESTÁ A ASSINATURA?
Putin começa com factos verdadeiros. Moscovitas e ucranianos partilham séculos de História. Partilham elementos culturais e religiosos. Partilham origens e espaços históricos. Ninguém precisa de negar isso.
A fraude começa no passo seguinte.
Uma história comum transforma-se numa escritura de propriedade. Uma origem partilhada transforma-se num direito de domínio. Uma herança histórica transforma-se numa reivindicação territorial.
A narrativa desenha então uma linha recta: Kyiv, Moscóvia, Império Russo, Rússia.
E conclui que a Ucrânia pertence historicamente à Rússia.
Mas a História real não é uma linha recta. Entre Kyiv e Moscovo existem séculos de fragmentação política, invasões, guerras, alianças, tratados e escolhas e identidades distintas.
Pereiaslav não encerrou a História. Hadiach prova-o.
Quatro anos depois, (não quatro séculos) a liderança cossaca estava novamente a negociar o seu futuro político. A Ruténia surgia como uma realidade política. As elites cossacas tinham voz. A hierarquia ortodoxa fazia parte da arquitectura institucional que se pretendia construir.
A História continuava. E é precisamente isso que a narrativa de Putin procura apagar: as escolhas que existiram e os caminhos que não conduziam inevitavelmente a Moscovo.
Putin pode recuar mil anos. Pode escolher os episódios que lhe interessam. Pode construir genealogias imaginárias. Pode apresentar conquistas como heranças.
Mas, quando transforma essa História numa pretensão de legitimidade sobre outro povo, já não basta falar.
É preciso provar. Por isso, a pergunta continua de pé. Alguém lhe faça
Onde está o documento que transferiu a autoridade de Kyiv para Moscovo?
Onde está a autoridade que o autorizou?
Onde está o tratado?
Onde está a assinatura?
Até existir uma resposta documental a estas perguntas, a «inevitabilidade histórica» apresentada por Putin continua a ser aquilo que realmente é:
uma narrativa política construída para justificar uma pretensão de poder. Uma estátua de pedra, um Armilus á espera que alguém lhe sopre!
Feliciano Vasa, 29 de Outubro de 2026
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