A advertência de Cristo, a expansão islâmica e os desafios que a Europa não deve ignorar
Estas foram as palavras de Jesus Cristo dirigidas aos seus discípulos quando lhes falou dos acontecimentos que haveriam de marcar o futuro. Uma advertência que atravessou os séculos e que continua a exigir dos cristãos discernimento, vigilância e capacidade para distinguir a verdade do engano, sobretudo quando este se apresenta revestido de linguagem religiosa.
Porque nem todos os que falam de paz procuram necessariamente a paz, nem todos os que invocam o nome de Deus estão ao serviço daquilo que Cristo ensinou. A história demonstra que a religião pode ser utilizada como instrumento de poder, mobilização política e legitimação de projetos que procuram subordinar a sociedade a uma determinada visão religiosa.
Hoje, num mundo marcado por conflitos, rivalidades geopolíticas e disputas pela influência religiosa, os cristãos precisam de olhar para os acontecimentos com lucidez. Não basta ouvir discursos sobre paz, reconciliação ou profecias bíblicas. É necessário examinar quem os profere, quais são os seus objetivos e que consequências poderão ter para a liberdade religiosa, para as instituições e para as gerações futuras.
A história que muitos cristãos desconhecem
Antes da expansão islâmica, o Egipto, a Síria, a Palestina e vastas regiões do Norte de África possuíam comunidades cristãs antigas e influentes. O Egipto era um dos grandes centros do cristianismo, a Síria acolhia importantes comunidades e tradições teológicas, e o Norte de África tinha produzido figuras fundamentais da história da Igreja, como Santo Agostinho de Hipona.
A partir do século VII, os exércitos dos primeiros califados conquistaram grande parte destes territórios. O domínio político muçulmano alterou progressivamente a composição religiosa dessas sociedades. Contudo, a islamização foi um processo prolongado, com ritmos diferentes de região para região, e não uma conversão imediata de todas as populações conquistadas.
As conquistas militares foram o início de uma transformação muito mais ampla. Ao longo dos séculos, diferentes comunidades cristãs enfrentaram impostos específicos, desigualdades jurídicas, restrições religiosas e episódios de perseguição. Nalguns contextos ocorreram conversões forçadas; noutros, a transformação resultou de pressões sociais, incentivos económicos, assimilação cultural, decisões individuais e mudanças demográficas.
A história não deve ser simplificada. Nem todos os governantes muçulmanos trataram os cristãos da mesma maneira, e muitas comunidades cristãs sobreviveram durante séculos sob domínio islâmico. Mas seria igualmente errado apagar as conquistas militares, as perseguições e as restrições que acompanharam determinados períodos dessa expansão.
Os cristãos europeus precisam de conhecer esta história. Não para alimentar o ódio contra os muçulmanos de hoje, mas para compreender que sociedades profundamente cristãs podem sofrer transformações religiosas e culturais duradouras, sobretudo quando se alteram as estruturas de poder, as condições de liberdade e as relações entre comunidades.
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus
Existe uma diferença fundamental entre a mensagem de Jesus Cristo e os modelos políticos que procuram subordinar a totalidade da vida civil a uma autoridade religiosa.
Quando Jesus declarou «Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mateus 22:21), estabeleceu uma distinção que continua a ser essencial para a reflexão sobre a relação entre a autoridade civil e a consciência religiosa.
Esta passagem não instituiu, por si só, a separação moderna entre Igreja e Estado. A própria história cristã conheceu períodos em que o poder político e o poder religioso estiveram profundamente ligados, incluindo episódios de intolerância e perseguição. Mas as palavras de Cristo permitem questionar a pretensão de qualquer autoridade temporal de controlar integralmente a consciência humana e a sua relação com Deus.
O Islão e o cristianismo são religiões distintas, com conceções diferentes de Jesus, da revelação, da autoridade religiosa e da organização da sociedade. Embora partilhem algumas referências da tradição abraâmica, não são equivalentes na sua teologia nem na forma como diferentes correntes interpretam a relação entre religião e poder.
Em determinados sistemas islâmicos, a lei religiosa ocupa um lugar central na legislação e na organização do Estado. Noutros países de maioria muçulmana, a relação entre as instituições civis e religiosas assume formas diferentes. É precisamente essa diversidade que exige uma análise rigorosa.
O problema surge quando uma interpretação religiosa é transformada em instrumento de imposição política, quando a liberdade de consciência é restringida ou quando os direitos dos cristãos e de outras minorias ficam subordinados à pertença religiosa.
Uma sociedade livre tem de proteger o direito de cada pessoa a professar uma religião, a mudar de religião ou a não professar nenhuma. E tem de garantir que a lei civil protege todos os cidadãos, independentemente da sua fé.
Do passado ao presente: o que deve a Europa aprender?
É aqui que o paralelismo histórico se torna relevante.
A expansão dos primeiros califados e a realidade contemporânea europeia não são o mesmo fenómeno. A Europa atual não está a viver uma repetição das conquistas militares do século VII. Mas a história mostra por que razão as sociedades devem estar atentas aos movimentos que procuram transformar a ordem política, jurídica e cultural através de uma ideologia religiosa.
Na Europa de hoje, a questão não é a existência de cidadãos muçulmanos. Milhões de muçulmanos vivem em sociedades europeias, muitos nasceram nelas e participam normalmente na vida económica, social e política. A sua presença não constitui, por si só, uma ameaça aos valores europeus.
A questão é outra: que fazer perante correntes islamistas que defendem a subordinação da lei civil a uma interpretação religiosa, organizações jihadistas que recorrem à violência, movimentos que procuram restringir os direitos das mulheres ou discursos que recusam a igualdade jurídica entre cidadãos de diferentes religiões?
Estes fenómenos devem ser identificados e combatidos através da lei, da prevenção da radicalização, da defesa da liberdade de expressão e da proteção das instituições democráticas. Não se deve esperar que a violência ou a intimidação se tornem generalizadas para reconhecer um problema.
A Europa tem valores que merecem ser defendidos: a liberdade de consciência, a igualdade perante a lei, a liberdade de expressão, a proteção das minorias e a separação entre a autoridade civil e a imposição religiosa. Estes princípios não pertencem exclusivamente aos cristãos, mas fazem parte da ordem constitucional de muitas sociedades europeias e foram moldados por uma história complexa, na qual o cristianismo teve uma influência profunda.
A advertência histórica não é que todos os muçulmanos pretendam destruir a Europa. É que nenhuma sociedade deve permitir que movimentos intolerantes, sejam religiosos ou políticos, utilizem as liberdades democráticas para eliminar as liberdades dos outros.
A tolerância não pode significar a aceitação passiva da intolerância. O respeito pela religião de alguém não obriga a aceitar a imposição dessa religião aos restantes cidadãos.
A falsa paz e a instrumentalização da fé
A palavra «paz» tem uma força moral evidente. Mas o simples facto de um partido, um dirigente ou uma organização utilizar essa palavra não demonstra que as suas propostas promovam uma paz duradoura.
Os cristãos devem examinar os objetivos, os meios e as consequências dos projetos que lhes são apresentados como parte de um desígnio divino. A fé não deve ser utilizada para retirar aos fiéis a capacidade de questionar dirigentes políticos, nem para transformar uma opção partidária numa obrigação espiritual.
O mesmo cuidado deve aplicar-se aos movimentos que recorrem a interpretações proféticas da Bíblia para justificar determinadas agendas no Médio Oriente. Defender Israel ou apoiar o povo judeu não significa, por si só, participar numa manipulação religiosa. O problema surge quando se pretende apresentar uma política concreta como vontade incontestável de Deus, tornando qualquer crítica equivalente a uma falta de fé.
Também é necessário investigar o apoio financeiro e político que Estados possam conceder a organizações extremistas. Quando existirem provas de financiamento, apoio logístico ou proteção política de movimentos violentos, esses factos devem ser expostos. Mas as responsabilidades devem ser atribuídas com base em evidências, e não em suspeitas generalizadas.
Aos cristãos cabe uma responsabilidade particular: não permitir que a sua fé seja instrumentalizada por interesses políticos, sejam eles provenientes do Médio Oriente, da Europa ou dos Estados Unidos.
Depois de Netanyahu: Yeshua Israel Ben David e o Gan Eden
É neste contexto que importa prestar atenção a Yeshua Israel Ben David, dirigente do partido israelita Gan Eden, cujo nome significa «Jardim do Éden».
A utilização de referências bíblicas na política israelita e a apresentação de propostas como a criação de um Ministério da Paz e da Reconciliação justificam que os cristãos procurem conhecer o programa, as posições e os objetivos deste movimento. Merece igualmente investigação a eventual ligação a setores do evangelismo americano e a correntes do sionismo político, sem presumir que essa relação está demonstrada apenas pela afinidade religiosa.
Não afirmo que este dirigente venha necessariamente a suceder a Benjamin Netanyahu ou a tornar-se primeiro-ministro de Israel. Essa é uma previsão que não pode ser apresentada como facto. Mas considero importante que os cristãos conheçam os movimentos políticos que associam as suas propostas a referências religiosas e avaliem criticamente as consequências do que defendem.
O nome de um partido, a invocação das Escrituras ou a utilização da palavra «paz» não provam, por si só, intenções ocultas. O que importa é analisar as propostas concretas, a conceção de Estado, o lugar atribuído à religião e a forma como são encarados os direitos daqueles que não partilham a mesma visão.
A advertência de Cristo aplica-se também aqui. Não devemos aceitar cegamente um dirigente apenas porque utiliza uma linguagem religiosa familiar ou apresenta os seus objetivos como parte de um desígnio divino. A fé exige discernimento, não submissão automática a projetos políticos.
Os cristãos precisam de despertar
A história ensina-nos que as sociedades podem sofrer transformações profundas quando ignoram os movimentos que procuram alterar a sua organização política, religiosa e cultural. Ensina-nos igualmente que a intolerância e a perseguição não pertencem exclusivamente a uma religião ou civilização.
Por isso, o dever dos cristãos não é alimentar o ódio contra outros povos, mas conhecer a história, reconhecer as ameaças reais à liberdade religiosa e recusar a instrumentalização da sua fé por qualquer poder político.
Não podemos ignorar a perseguição de comunidades cristãs, a violência do extremismo religioso ou as consequências da imposição de uma doutrina através do poder do Estado. Mas também não devemos transformar receios legítimos em certezas sem provas.
A defesa dos valores europeus exige firmeza na aplicação da lei, clareza quanto aos princípios constitucionais e coragem para enfrentar o extremismo. Exige também que não confundamos uma religião inteira com as correntes políticas que procuram falar em seu nome.
Jesus não pediu aos seus discípulos que acreditassem em todos os que falassem em seu nome. Advertiu-os contra o engano.
«Acautelai-vos, que ninguém vos engane.»
Esta advertência continua atual. E a pergunta que cada cristão deve fazer perante os acontecimentos do nosso tempo é simples: estamos a avaliar os dirigentes e os movimentos pelas suas palavras, ou estamos verdadeiramente a examinar os seus atos, os seus objetivos e os frutos das suas ações?
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